3.8.10

Guto com Brossa

Há mais ou menos um ano, durante os dias em que discutia com Ronald Polito uma imagem para a capa da antologia de Joan Brossa que organizamos - por alguns motivos, não queríamos um poema visual do próprio Brossa ilustrando a capa - eu trocava alguns e-mails com o artista visual Guto Lacaz. Nestes e-mails, eu procurava convencê-lo de que principalmente o sentido de humor em sua obra é inteiramente brossiano. Guto resistia, argumentava que vê em Brossa algo mais cáustico - e acho mesmo que tem razão - disse ainda que suas fontes são outras, mas eu insisti em outros dois e-mails, até que finalmente, provavelmente por cansaço, ele aceitou. Na verdade, eu havia conhecido o Guto, rapidamente, em uma exposição no Museu Victor Meirelles, de Florianópolis - embora já soubesse algo de seus poemas visuais - e neste momento inclusive a sua aparência física me pareceu muito semelhante com a imagem que tenho de Brossa: amigável, com certo ar leve e distraído, porém disciplinado, e sempre com a camisa por dentro da calça. Seja como for, dentre outras sugestões, tive a idéia de ilustrar a capa com um poema visual de Guto Lacaz, pois me divertia sobretudo sua resistência em relação a alguns aspectos da obra de Brossa. Com poucos e-mails e com o auxílio de uma série de acasos, tudo estava acertado, e Guto então, com uma intuição precisa e definitiva, sugeriu O Trabalhador. O poema visual de Guto, em todos os aspectos, se associava com a idéia que tinhamos para a antologia: simplicidade material aliada a alguma idéia de excesso no conceito, afinal estávamos publicando 99 poemas e não 25. De quebra, a forma gráfica do personagem ainda insinua certas letras, sobretudo a letra A, marca mais definitiva da poesia visual de Brossa. Um pequeno laço entre Guto e Brossa, enfim, estava feito.

Um comentário:

invisível disse...

vi uma suástica no trabalhador e lembro dos opressivos campos de concentração e a martelar só o trabalho liberta.

anarquista que sou, não concordo com nada disso, mas com medo de retaliações, sofro em me manter incólume.