9.8.10

Machado de Assis e o fim do livro: uma errata

Em um breve texto de 1859, intitulado “O jornal e o livro”, no interior de toda a discussão sobre o progresso e o fortalecimento da imprensa nacional – texto em “cujas veias ferve o licor da esperança”, como é mencionado[1] – Machado de Assis, com vinte anos de idade, se pergunta sobre o fim do livro. “Tudo se regenera: tudo toma uma nova face”, escreve – para depois fazer o seguinte diagnóstico: “O jornal é um sintoma, um exemplo desta regeneração”. Para Machado, com certa ingenuidade, o jornal será o meio que representa a democracia, a literatura comum, a reprodução do espírito do povo, espelho dos fatos; o jornal, ainda, nas palavras de Machado, será o responsável por uma grande revolução literária e social. Por fim, acredita: “Não é uma aurora de felicidade que se entreabre no horizonte?”[2]

Em linhas gerais, o argumento consiste em enunciar certa idéia de progresso e democratização a partir do surgimento da imprensa: primeiro com o livro e, sobretudo, com o jornal. Nada pior. Mas haverá, mesmo nisso, no interior de uma história das formas, uma incisão, um corte, que é o que interessa aqui. “A imprensa devorou, pois, a arquitetura”, escreve Machado[3] – e esta constatação (de resto, uma metáfora) não é de todo desinteressante. Pode-se dizer, a partir daí, acentuando o mesmo enunciado de outro modo: o fragmento destruiu a forma compacta; a dispersão disseminou a unidade.



Depois, de qualquer modo, Machado elabora uma pergunta que ainda deve produzir eco, já que pauta toda uma discussão que, hoje, acaba disfarçando o clichê através do estereótipo do novo, sempre muito vendável: “O jornal matará o livro? O livro absorverá o jornal?”[4] Seja como for, a reflexão parece de grande interesse, pois é atravessada por imagens abertas, ambíguas, espécie de fantasmas que rondam o argumento central, suplementos: a catedral enquanto arquitetura, luz; o livro, por sua vez, enquanto a parte do fogo; e o jornal, finalmente, dispersão e máquina. Estas imagens, a rigor, ainda apontam uma idéia da escrita enquanto algo em movimento. Digo, estas imagens devem ser lidas em tensão mesmo com o próprio argumento central machadiano. Em outras palavras, neste breve texto, a despeito de todas as suas ingenuidades, Machado deve apreender certo problema da escrita que irá, digamos, definir o século XX – e nem chega a ser uma ousadia sugerir que Machado acaba sendo mais contemporâneo do que nós.

Sabe-se a determinação que o jornal, enquanto forma, tem sobre a literatura de Machado de Assis. Alguns de seus romances, por exemplo, foram publicados primeiro em folhetim, com uma forma absolutamente fragmentada; muitas de suas temáticas, por sua vez, como se sabe, nascem na crônica, na cidade. O jornal, ainda, de muitas maneiras, dispara e dissemina relações entre escrita e imagem. No entanto, há níveis mais rarefeitos de ressonância. A crítica Ana Luiza Andrade, em um ensaio que desde o título anuncia a idéia de passagens, Transportes pelo olhar, nota certa estrutura de abismo na escrita de Machado e associa o corte com as recorrentes erratas publicadas principalmente nos diários realizados ainda de modo artesanal. Ou seja, qualquer erro tipográfico produzia erratas, duplos. Dito de outro modo, a impressão acontece com as letras invertidas.[5]

São duas as metáforas que atravessam este momento da reflexão de Ana Luiza Andrade – a letra espelhada e a folha solta. A técnica de impressão altera mesmo a escrita, assim como no cinema, exibindo sua segunda face. Assim é possível pensar de outro modo a imagem de um conto como “O espelho” – de fato, uma errata. A folha solta, por sua vez, é uma escrita ausente, fora da narrativa, descartável, contingente, dispersa – a folha solta é uma espécie de espelho informe do livro. Não é aleatório, portanto, como escreve Ana Luiza, que Machado se refira ao homem, em Memórias Póstumas de Brás Cubas, como uma “errata pensante”.[6] A errata é paradoxal porque corrige e ao mesmo tempo, como armadilha, chama atenção para o erro. Haverá sempre, portanto, também uma segunda errata.

De tudo, talvez seja fundamental reter a seguinte idéia: o que está em jogo é uma escrita que falta em seu lugar, que exibe sua própria desmesura em relação àquilo que representa. Em outras palavras, ainda parafraseando Ana Luiza, trata-se de um procedimento em que a escrita se desloca da matéria, das coisas. Machado tematiza o problema com recorrência, principalmente no jogo que realiza com a estrutura dos capítulos, mas darei apenas dois exemplos. Em um capítulo de Memórias Póstumas, intitulado “Inutilidade”, a única frase que se lê é a seguinte: “Mas, ou muito me engano, ou acabo de escrever um capítulo inútil”,[7] apontando para o próprio capítulo enquanto lugar de ausência. Já no capítulo “De como não fui ministro d’Estado”, uma antecipação perfeita do concretismo – e jamais mencionado pelos irmãos Campos – sequer existe a formação de uma escrita, mas apenas pontos na página, pois não se pode narrar o fracasso – e esta constatação se acentua ainda mais com o capítulo seguinte, intitulado ironicamente: “Que explica o anterior”, uma errata visível, transparente. E de fato, a primeira frase deste capítulo acaba, como na volta de um parafuso, reafirmando o vazio: “Há coisas que melhor se dizem calando”.[8]

NOTAS:

[1] ASSIS, Machado. O jornal e o livro. Apud: ANDRADE, Ana Luiza. Transportes pelo olhar de Machado de Assis. Chapecó: Grifos, 1999.
[2] Idem, Ibidem.
[3] Idem, Ibidem.
[4] Idem, Ibidem.
[5] ANDRADE, Ana Luiza. Transportes pelo olhar de Machado de Assis. Chapecó: Grifos, 1999, p. 165.
[6] Idem, Ibidem.
[7] ASSIS, Machado. Memórias póstumas de Brás Cubas. São Paulo: Ática, 1997, p. 158.
[8] Idem, Ibidem., p. 160.

Um comentário:

Anônimo disse...

Gostei do texto. Que incrível este texto do Machado. Fim do livro! Um abraço, M.