24.8.10

A origem do mundo



Curiosamente, o que sempre me chamou a atenção nesta pintura de Coubert, de 1866 - pintura que permaneceu durante anos no escritório de Lacan, antes de ser doada para o Museu d'Orsay, onde está até hoje - foi o título: A Origem do Mundo. É provável que, na história da arte, jamais um título tenha alterado tanto, até aquele momento, a leitura que se faz da pintura - já que os títulos geralmente não passavam de um comentário redundante e sem importância sobre a imagem. Se A Origem do Mundo, e não poderia ser diferente, por seu ponto de vista inusitado, pelo menos em pintura, causou escândalo na sociedade burguesa de Paris do século XIX - Coubert já era um pintor estimado em 1866 - o título ainda ironiza o próprio gesto (e rebaixa, portanto) na medida em que, justamente através de sua nomeação, faz dele um chiste. É como se Coubert dissesse, com ar desinteressado, diante de uma platéia horrorizada: ah, não liguem pra isso; é só uma brincadeira! E o chiste acontece, finalmente, de maneira paradoxal, pois a pintura se torna, com o título, ainda mais baixa - se não bastasse seu caráter pornográfico (e não erótico) - através de uma referência grandiosa; falsamente grandiosa, naturalmente. Jamais encontrei uma referência de Duchamp ao quadro de Coubert, mas não creio existir no século XIX algo tão próximo de sua obra.

12 comentários:

jean mafra em minúsculas disse...

muito bem dito!

aliás, essa pintura é linda de morrer e seu título, embora possa ser lido como piada, ao meu ver, potencializa sua beleza.

no mais, na época em que disponibilizei "dobra" como single, pensei em usar essa imagem como capa, mas achei (corretamente) que ela seria muito óbvia e que poderia reforçar ainda mais a idéia de que aquela canção era apenas "pra chocar" (ou algo do tipo)...

abraço.

(ah, e dei continuidade a tua fala sobre wilson batista lá...)

Anônimo disse...

Não compartilho de sua ligação ao Duchamp. Acadêmicos sempre tentam juntar referências inusitadas, mesmo forçando a barra, vá fazer doutorado logo, fantasiar sobre coisas inúteis e sem nexo, em um ambiente onde todos irão louvar a sua inutilidade prática.

Victor da Rosa disse...

não entendo o motivo da grosseria. 'associar referências inusitadas' é a função de qualquer intelectual ou artista.

conhece etant donnes, do duchamp? busque no google. aliás, a associação nem é tão 'inusitada' assim.

Lengo D'Noronha disse...

Victor, talvez o que mais tenha chocado aquela burguesia seja o título que não faz menção a deus, que seria o esperado.

Victor da Rosa disse...

você acha que seria esperado a menção a deus, lengo, mesmo com a imagem pornográfica? não entendi bem.

Anônimo disse...

nenhuma imagem é tão atéia, quanto esta (e se é de 1866 é de alguns anos após "a origem das espécies"). através dela qualquer relação com deus é negada. a criação é toda e somente humana.
é difícil eu concordar com o minúsculo jean, mas neste ponto estou com ele e não abro: a pintura tem sua beleza potencializada pelo título.
pornografia??? como assim???

Victor da Rosa disse...

se pensar o erotismo como uma imagem que esconde, vela, ao invés de revelar, a pintura de coubert não é muito erótica. outra coisa é que a pintura faz questão de esconder o rosto. pra mim, é uma capa da sexy. mas não há valor nenhum nisso. continua sendo belo, como queira.

Anônimo disse...

minha amada imortal

Lengo D'Noronha disse...

Olá, Victor.
Talvez não tenha me expressado bem.
Quero enfatizar somente o título que à época seria inconcebível senão com alguma imagem de deus.
Aí reside o pragmatismo da palavra. Mesmo que a imagem fosse outra, não tão, digamos, escancarada.

Abraço.

Lengo D'Noronha disse...

Victor,
Navegando, encontrei algo interessante a respeito desta postagem.
Se lhe interessa, vai lá:

http://5dias.net/2010/05/23/uma-vulva-e-um-orificio-numa-porta-o-que-e-olhar-uma-licao-sobre-courbet-e-marcel-duchamp/

Abraço.

Júlia Eleguida disse...

ontem vi janela da alma, e o final me remeteu a este quadro e a tua discussão, a janela da alma, a origem do mundo. conto o final, pois o filme se sustenta idenpendente dele, é um documentário muito interessante sobre as formas de se ver e sentir o mundo e a si mesmo, em que conversa com pessoas que tem problemas com a visão, ou outras formas de olhar.

a minha interpretação para o quadro é colocar a mulher e o nascimento, e ainda o homem, como a origem do mundo. não deus nem qualquer milagre.

andré disse...

se tu é macho mesmo, agora posta aí a imagem de uma piroca. O jean vai adorar...