1.9.10

A história do machismo

A história da música brasileira é uma variação rica e interminável das variadas possibilidades de representação do machismo. Quem se horroriza com o funk carioca, não pode se horrorizar também com uma canção como Formosa, aqui, de Vinícius de Moraes? Há os casos clássicos de machismo, como a Amélia, de Ataulfo Alves, aqui, mas há também casos mais sutis e que às vezes nem são percebidos. De qualquer modo, na canção de Ataulfo, Amélia é uma mulher perdida, de quem o narrador tem saudades, em oposição com a mulher atual, que só pensa em luxo e riqueza. Wilson Batista, por sua vez - o mesmo compositor de Emília, uma variação explícita de Amélia - é o primeiro sambista que, salvo engano, dá voz ao feminino, em um pequeno bilhete, com o samba Oh! Seu Oscar, em parceria com o mesmo Ataulfo, aqui, quando o marido chega do trabalho e lê as mal traçadas linhas da própria esposa dizendo que: "não posso mais / eu quero é viver na orgia".

Não há nada mais machista, depois, que o ritual do samba - que nasceu aliás nos fundos da casa de uma mulher, a tia Ciata - onde a mulher é objeto puro: o homem que deve escolher, cortejar, conduzir. A rigor, é este o motivo que explica porque as feministas não sabem dançar samba. Para ser conduzida - e a qualidade de uma mulher no samba diz respeito a apenas isso: saber ser conduzida - a feminista precisa, no mínimo, esquecer onde está. O escândalo que as cantoras do rádio causam, nas década de quarenta e cinquenta, por outro lado, depois da fase áurea do machismo, não tem tanto a ver com o conteúdo das letras - embora tenha também - mas principalmente com a própria forma: é quando o feminino, pela primeira vez, quebra a ordem do discurso e enuncia a própria voz, sem que outro precise dizê-la. A voz rouca de Maysa cantando Coração Vagabundo, aqui - voz rouca da cachaça, diga-se - diz mais do que qualquer letra.



É Chico Buarque quem deita e rola com os clichês femininos herdados pela década de setenta, e isso - paradoxalmente, vamos combinar (é preciso esquecer seus olhos azuis) - faz de Chico o homem mais desejado do Brasil. É verdade que Chico representa mulheres subversivas, digamos, mas o que há de mulheres submissas em suas canções não é brincadeira - este exemplo, aqui, a meu ver, acaba com qualquer argumento contrário, embora a canção seja bem maior do que isso. Não se pode dizer, por estas canções, naturalmente, que Chico é machista; talvez o que esta geração faça é, diferente do machismo clássico, usar o machismo como matéria, com certo distanciamento crítico. Caetano Veloso faz algo parecido - e muito bonito - com a canção Esse Cara, aqui, que termina com o verso: "Eu sou apenas uma mulher", que tem a qualidade de não trazer um sentido estável - e que fica ainda mais poderoso e ambíguo quando é cantado por Cazuza, aqui.

(talvez continue)

4 comentários:

Í.ta** disse...

continua, sim.

gab disse...

acho que o Serguei é um elo paradigmático das identidades generificadas na cena musical brasuca.

Anônimo disse...

nem ouvi os outros, mas aquele link do atras da porta da elis nem é machista. descordo.

Anônimo disse...

Não é defendendo o Chico por eu ser apaixonada nele, mas todo o ser humano sofre por amor, e às vezes se transforma na mais completa inexistência, só para servir àquele que é o objeto do amor. O Chico cantou e canta as visões masculinas e femininas, aliás, ele sofre como homem e como mulher. O que acontece é que os homens não têm coragem de assumir o fato de que tbm vivem emoções como as da música "atrás da porta". Como belo machistas que são, nos colocam para exagerar emoções, para que as deles sejam abafadas pelas nossas, e para que eles possam sofrer por um amor, sem que ngm mais ouça e veja. E para todos os efeitos: cachaça, churrasco e mulher, só disso que eu (eles, os homens) precisam.