17.9.10

A origem da sacanagem

Terminei de ler Ana Karenina, de Liev Tolstói. Karenina, como se sabe, é uma personagem incrível, que começa o romance sobre o salto - suas aparições são sempre cobertas por certa aura, por outra edição do tempo, como se o narrador, que é neutro, a respeitasse especialmente - e termina debaixo dos trilhos de um trem, por espontânea vontade. A curva dramática de Karenina é o que há de mais impressionante no romance. Em linguagem vulgar, Karenina desce ladeira abaixo. Em parte, a personagem se mata por pressão da sociedade, depois de cornear bem o marido e passar a viver com outro homem sem a benção do matrimônio. Com isso, quero dizer que o suicídio, na literatura européia do fim século XIX, parece ser o destino de grande parte das mulheres que aplicam um chifronésio no marido: Karenina, com o pretexto do ciúme, se joga no trilho; Emma Bovary, com o pretexto da grana, engole arsênio. Daí a gente pensa no Brasil. Machado de Assis. Dom Casmurro. Capitu acaba tirando férias na Suíça.

4 comentários:

gilvas disse...

muito bem apontado: a malandragem brasileira transcende gêneros.

e é "arsênico", ou a menina ia engasgar com aquele âncora de tevê que contracenou com eddie murphy em príncipe em nova iorque.

Í.ta** disse...

chifronésio

Pádua Fernandes disse...

Machado de Assis dá a Capitu o benefício da dúvida: in dubio pro reo!

Anônimo disse...

spoiler fudido