24.9.10

Xeque-mate

Por Victor da Rosa, para Sopro

O xeque-mate - do persa shāh māt: o rei está morto - ocupa uma função controversa nas leis do jogo de xadrez. Trata-se de uma expressão, como se sabe, que designa o lance final - é quando um dos reis, afogado pelo adversário, não tem mais qualquer possibilidade de movimento. De saída, e nisso consiste o primeiro traço de ambivalência da expressão, a rigor, o rei não morre. Pode-se dizer, no máximo, que o ar lhe falta - pode-se dizer até que o rei agoniza - mas de seu destino quase nada sabemos. Em resumo, o xeque-mate é exatamente, negando sua enunciação, o lance anterior ao que podemos chamar de morte. Daí que o gesto de derrubar o próprio rei pra simbolizar a derrota pode ser interpretado enquanto abandono, desistência e até mesmo fuga; mas não, a meu ver, enquanto morte. Os longos matchs entre mestres internacionais, que por vezes chegam a dez ou quinze confrontos, dão o testemunho (prático, talvez) do que estou querendo afirmar - perde-se a batalha, ganha-se a vida. E talvez seja esta dimensão falsa da morte que acaba moldando certa atitude do grande jogador de xadrez - algo que se posiciona entre lição e arte - que é justamente a consciência do abandono. Diferente do senso-comum, que vê grandeza naquele que luta até o último instante - a saber, até a morte (o herói medieval morre no campo de batalha) - o jogador de xadrez deve ter a medida de seu esforço. Saber abandonar uma partida no momento certo, portanto, é uma demonstração de domínio - no caso, da própria derrota. Só os jogadores medíocres - leia-se: incapazes de ler e fazer previsões da própria condição dentro do jogo - são capazes de perder uma partida através de um xeque-mate. A morte, por jamais tornar-se concreta, fica sendo pura potência. Talvez seja este caráter inacabado, afinal - o jogo acaba sempre antes de acabar - que conceda ao jogo de xadrez, na forma de rito, miniatura de guerra, a possibilidade de um eterno recomeçar.

4 comentários:

Anônimo disse...

Oi, Victor, parabéns pelo blog, vou ler sempre. Quem me indicou fui um amigo, o Ronald. Gostei bastante do post sobre o xeque-mate, sobretudo o final.

Apenas uma coisa: no início, quando você fala do "rei afogado", sem possibilidade de movimento, isso não significa xeque-mate. Na verdade, quando um dos dois reis acaba afogado, a partida empata, nenhum dos lados perde.

O rei que leva xeque-mate não está afogado, ele leva o ataque direto de no mínimo uma peça e não tem para onde fugir.

Um abraço,
Ricardo.

Victor da Rosa disse...

caro ricardo, obrigado pela visita e pelo comentário. ronald é um amigo querido e um escritor que prezo muito.

quanto ao seu comentário, você tem toda razão. o significante 'afogado' até serviria pra expressar o que eu quero - caso não fosse uma idéia específica do jogo de xadrez. a coisa assim fica deslizando, de fato. aliás, tem que rever se a idéia de afogamento não traz problemas pro meu argumento.

outro abraço em você,

Lauro Muller disse...

Genial!!!
Nós vamos usar esse texto.
Valeu!

Lauro Muller disse...

Prezado Sr. Victor da Rosa,
Fui eu quem fez o comentário acima, fiquei muito entusiasmado com suas palavras.
Sou integrante da AXEI-SC, Associação de Xadrez dos Enxadristas de Irati e, realmente, gostei muito de seu texto, "Xeque-mate". Gostaria de solicitar sua autorização para o incluirmos em nossa publicação anual, "Guia do Enxadrista 2010".
Posso realizar um contato via email se preferir.
Abraços e parabéns pelo blog. Vamos combinar uma partida e um café!