14.10.10

A nossa filosofia e a deles

No livro A farmácia de Platão, de modo genial, Derrida elabora o conceito de indecidibilidade a partir do significante grego pharmákon, que referia, ao mesmo tempo, remédio e veneno; é daí que surge, pela impossibilidade da interpretação, todo um programa de filosofia não-hermenêutico. O que ninguém diz é que Derrida copiou esta idéia do sambista Aluisio Machado, amigo íntimo de Derrida; ambos se conheceram em uma das visitas do filósofo francês ao Rio de Janeiro, quando desfilou pela Império Serrano, escola em que Aluisio era passista e mestre-sala. Em seu samba Minha filosofia, interpretado por Alcione em 1981 - Derrida foi atraído justamente pelo título e pela brilhante interpretação da marrom, em plena flor da idade - o sambista carioca, que nasceu no ano de 1939, nove anos depois de Derrida, já fazia aparecer a teoria da indecidibilidade em estado de pura potência, inclusive com as mesmas construções linguisticas que Derrida usou alguns anos depois. Além de versos dignos do melhor sofismo, como "tudo que é muito é demais" ou mesmo "relógio que atrasa não adianta" - versos aliás invejados por Derrida, de acordo com uma entrevista que o filósofo concedeu à Revista de Descontrução, já no fim de sua vida - o samba fecha com as seguintes palavras: "o remédio que cura também pode matar / como água demais mata a planta". Além do mais, francamente, Aluísio Machado tem cara e nome de filósofo. Para escutar o samba inteiro, aqui ou aqui.

4 comentários:

katherine funke disse...

"relógio que atrasa não adianta", grande pérola. obrigada, ganhei o dia. "uma gota de poesia / ganhei o dia" (nildão, bahia)

Anônimo disse...

que mentirada!!!

Anônimo disse...

Essa passagem de Derrida pelo samba brasileiro é de fato muito curiosa. Lembro, por exemplo, da clara alusão que o texto "Dar o Tempo" (ainda sem tradução para o português) faz ao samba de Candeia. A tese de Derrida é conhecida: não há presente desinteressado. Todo presente dado pede, mesmo sem assim desejar, um outro. Essa é uma tese constante no samba de Candeia. Lembro-me do famoso ditado popular por ele citado "se conselho fosse bom, não se dava, se vendia". Há uma marca nas trocas sociais que independe de qualquer voluntarismo. Candeia e Derrida estavam atentos a isso, Derrida principalmente no fim de sua carreira, que foi, literalmente, um fim de carreira.

Victor da Rosa disse...

exatamente!