22.11.10

Algo de Cada

Bruno Brum - mineiro, de Belo Horizonte, torcedor do América, que tive o prazer de conhecer nos meses em que passei por lá - é autor de dois livros de poemas: Mínima Idéia, de 2004, e Cada, de 2007; e está quase lançando o terceiro, Anaeróbica, vencedor do Prêmio Minas faz uns meses. A poesia de Bruno, cheia de cuidado e humor - ou de um humor que se esconde por trás do cuidado, talvez - parece uma junção feliz, e muito difícil, entre certo coloquialismo, de estilo bem direto, e a radicalização da elipse, com antecedentes na poesia de Oswald de Andrade e Leminski, pelo menos. Bruno Brum vive agora em São Paulo, onde trabalha como designer, e de onde respondeu estas perguntas, por e-mail.

Você tem dois livros publicados. Os livros são diferentes entre si, mas há alguns traços que se repetem. Certa aproximação com a imagem, por exemplo. E nisso, através da imagem, um claro desejo de contenção, elipse. Você, além de escritor, é designer gráfico.

O poesia e o design começaram mais ou menos na mesma época para mim. No final dos anos 90, quando escrevi meus primeiros poemas, toquei também em algumas bandas e, de forma bem precária, criava as capinhas das fitas demo. Ainda nessa época cheguei fazer aulas de pintura mas, assim como no caso da música, não segui adiante nessa atividade. Quando fui publicar o Mínima Idéia, lançado de forma independente, cheguei a um impasse: não conhecia designers ou pessoas ligadas à edição de livros e não tinha muita ideia de por onde começar, como fazer a capa, o projeto gráfico, que tipo de gráfica procurar. A produção de um livro era algo que me escapava completamente. Assim, decidi fazer tudo por conta própria. Instalei programas de editoração e edição de imagens em meu computador e comecei a esboçar o que viria a ser o projeto gráfico do livro.

Nessa época, por volta de 2003, eu estava bastante envolvido com a poesia concreta. A descoberta da poesia visual havia me proporcionado uma liberdade e ao mesmo tempo uma visão crítica da poesia como eu jamais havia experimentado até então, o que me fez direcionar minha produção toda nesse sentido.

E como foi, na sua opinião, o resultado? De qualquer modo, depois, com o Cada, você chega a lugares diferentes, com a imagem mais pra dentro dos próprias poemas, mais incorporada na própria escrita, talvez.

O resultado foi um livro predominantemente visual que, de maneira meio contraditória, estava a meio caminho entre a contensão e o excesso. Com o Cada, decidi que faria um livro sem esse tipo de apoio visual. Os poemas deveriam todos ser escritos com a mesma fonte, no mesmo corpo, a mesma diagramação. Isso me permitiu fazer coisas aparentemente bastante diferentes do que havia feito até então, embora acredite que as principais características da minha poesia naquele momento continuassem lá. Era um livro magro, com poucos poemas, em sua maioria curtos e objetivos. Havia uma preocupação sobretudo com a imagem e o ritmo, além do humor, do qual não abro mão. A essa altura eu já estava trabalhando de maneira intensa como designer gráfico. Acho que de modo geral o Cada é um trabalho mais bem resolvido, tanto do ponto de vista da poesia quanto do design. Consegui com ele aparar alguns excessos do livro anterior e me concentrar naquilo que queria dizer, sem abrir mão do aspecto formal.

A tua formação é bem diversa, digamos - você estudou um pouco história, letras, design gráfico - mas por outro lado é possível perceber, com um pouco de convivência, e mesmo através da tua produção, que você é um leitor assíduo e até mesmo bem organizado de poesia, basicamente.

Assíduo, sim; bem organizado, não. Desde que me interessei por poesia procurei ler sempre o máximo possível. Não por dever de ofício, mas por curiosidade. A leitura de um autor me levava a outros, que me levavam a outros, sem uma lógica ou uma linearidade aparentes. E é assim até hoje. Me lembro que comecei a escrever junto com alguns amigos de escola, que pareciam se contentar em escrever uma poesia confessional, focada exclusivamente em suas experiências pessoais. A mim, um pouco além disso, me interessava saber quem foram os grande poetas, o que fizeram, que tipo de técnica utilizavam, o que pensavam. Isso me levou a aprofundar os estudos cada vez mais, repito, movido pela curiosidade. Depois cheguei aos contemporâneos, escritores com os quais eu podia me encontrar, me comunicar e isso foi também fundamental para mim. Paralelamente, cursei história durante alguns anos e letras, depois. Nunca me preocupei muito com essa questão do mercado, de ter uma profissão, de seguir carreira. As coisas foram acontecendo e eu fui me movimentando junto com elas.


DOIS POEMAS:
/
SONDA

beijo na boca
(músculos
e intestinos
funcionando)
do estômago
/
*
/
PISTA
/
Passou apressada,
as pernas pesando
mais que as asas
– as plumas –
de uma vespa
que, como não
passasse,
despistasse
- - - - - -
o próprio
passo.