29.11.10

Ao vencedor, as estrelas

O Livro dos Mandarins, de Ricardo Lísias, em resumo, é uma paródia do mundo corporativo. Pode-se dizer que neste romance, publicado em 2009, o escritor ainda lida com convenções estritamente literárias – certo respeito ao enredo; alguma estabilidade do narrador; a presença do herói; etc. – mas estas convenções já aparecem constantemente ameaçadas por seu próprio cúmulo: uma artificialidade devastadora. De fato, é como se as convenções estivessem ali, sugerindo um pacto amistoso com o leitor, apenas para serem pervertidas na seqüência. Chega um momento em que seu texto passa a impressão de algo que, mesmo desligado, segue girando. Seja como for, as seqüências de idéias fixas e pormenores inúteis corrompem, aos poucos, um ritmo mais natural da narrativa. Uma das obsessões da literatura de Lísias é a própria obsessão.

De qualquer modo, neste caso, a ironia não se apresenta diretamente através da voz do narrador, digamos, mas na contradição, talvez – ou no abismo – entre o que se diz e como se diz. Neste sentido, por um modo particular de manipulação do discurso, Ricardo Lísias pode ser considerado um machadiano. O narrador, embora onisciente, com uma escrita direta, quase documental, como um relatório, não é neutro, não está exterior ao relato: há um fio firme que o mantém implicado na narrativa; em outras palavras, é um narrador performático. A escrita de O Livro dos Mandarins, seca, curta e grossa, às vezes, através do estilo mesmo de escrita, parece funcionar como espelho do próprio mundo que descreve. Neste sentido, o romance de Lísias opera radicalmente por apropriação: o estereótipo é sua principal matéria. As insistentes repetições - de enunciados, nomes, motivos - nos dizem que, afinal, não há nada mais a ser dito sobre aquele mundo circular.

Nota-se o nome dos personagens: Paulo, Paula, Paul, seu Paulo, Paulinho, sendo que alguns ainda se repetem. O recurso é eficiente pelo absurdo: no mundo das grandes corporações, não há singularidade possível – todos são mais ou menos iguais. Aliás, sempre que Paulo, o protagonista (o primeiro, no caso), é distinguido por suas qualidades profissionais, recebe asteriscos em seu nome, incorporados na própria escrita: Paul*, Pau**, Pa***, P****, até que o personagem não tenha mais nome, apagando junto, pela maneira como o nome próprio fica preso a uma função, qualquer possibilidade de tornar-se singular. Paulo é o funcionário de um banco brasileiro que, por suas qualidades, alcança uma vaga para trabalhar na China. No sentido inverso, acontece o mesmo com Godói – o vilão, digamos: a contra-imagem de Paulo – quase sempre referido como “Godói, aquele filho da puta”.

Como se pode imaginar, os personagens de O Livro dos Mandarins não possuem vida própria além da vida corporativa; não possuem psicologia, desejo, corpo. Um mundo corporativo, afinal, é um mundo em miniatura sujeito a regras estritas, normas próprias. Aliás, talvez seja este afastamento em relação a tudo que é comum – em relação a tudo que pode ser compartilhado – que sugira no romance um efeito hiper-realista. Há uma obsessão do protagonista, dentre inúmeras – e esta obsessão deve ilustrar com precisão a idéia – de manter fora do mundo da corporação qualquer interferência exterior: o retrato de um sobrinho querido da secretária, por exemplo. As situações absurdas não nascem de uma ausência de leis, mas de um excesso delas. O próprio absurdo, afinal, não está em outro lugar senão na vida.

Um comentário:

Pádua Fernandes disse...

Eu não havia lido ainda esta resenha. Também achei que se trata de um livro importante, e que joga de maneira mais do que hábil com o artificialismo - próprio dessa escrita e também do universo criado naquele romance, a emular os próprios recursos do meundo corporativo.
Abraços, Pádua.