3.11.10

O silêncio e a prudência

Acho que o Derrida é quem disse algo assim: quanto mais falamos, mais ficam buracos pelo caminho. Eu penso assim também, desejaria ser uma pessoa silenciosa, até lacônica, e me incomodo profundamente com pessoas tagarelas, mas nunca consigo. Com desconhecidos até me dou melhor, mas com amigos é um desastre. Várias vezes já fiz estes exercícios, me dou bem no começo; mas passa meia-hora, esqueço, e já estou eu me abrindo outra vez.

Uma das coisas que mais admiro em alguém é exatamente o seguinte: quando a pessoa está contando algo e de repente fica em silêncio no meio da frase, pensando na palavra certa, em uma grande idéia, e então todos esperam atenciosos durante alguns segundos pra saber o que a pessoa dirá. O Wim Wenders faz muito isso nas entrevistas. Eu gostaria de ser como o Wim Wenders, neste caso, e em outros também, mas quando eu interrompo uma frase no meio - claro, eu já tentei várias vezes - outra pessoa já começa outro assunto e eu fico lá, sozinho, procurando a minha palavrinha pra ninguém. Ninguém espera aqueles segundos. Talvez porque saibam que não virá nada de mais. "Ah, não vale a pena esperar", é o que as pessoas pensam.

Uma amiga me diz que o problema é mais amplo; é a visão de mundo. "É uma questão de achar que não vai sair nada de bom mesmo", ela diz, e acho que está coberta de razão. Eu consigo imaginar desta maneira, mas meu coração acaba por me desmentir. Meu coração diz: "Já que estamos aqui, vamos fazer um ambiente legal, não é mesmo?" Reconheço que este pensamento é uma merda, mas cansei de lutar contra ele. Ou este: "As pessoas são todas um verdadeiro saco, mas será que esta pessoinha não terá algo de bonito?" Quanta esperança na humanidade! O raciocínio certo seria este: "que série de chatices, vou ficar em silêncio pra tornar o clima pesado e acabar logo com isso"

Mesmo quando não estou falando, quando estou só ouvindo, gostaria de rir pouco, por exemplo. É quando a pessoa faz só um sorriso meio de lado, desprezando a fala do outro, mas reconhecendo algum valor nela, pouco e às vezes. Trata-se de um sorriso que nem emite som. O problema é que, outra vez, tenho uma gargalhada escandalosa dos infernos. Só percebo o escândalo que estou fazendo quando alguém comenta carinhosamente - e sempre alguém comenta isso: "não sei se acho mais engraçada a piada ou a risada do Victor......" E o que dizer, enfim, das pessoas que sequer riem das próprias coisas engraçadas que dizem?

Um comentário:

jean mafra em minúsculas disse...

caraca, há muito tempo não ouço essa tua gargalhada.