28.11.10

Olho e ar

Em uma longa entrevista que deu no fim da vida, transformada depois em documentário, Deleuze diz que não acredita que o teatro seja uma arte que acompanhe a nossa época; com raras exceções, diz: Bob Wilson é uma delas. Em Porto Alegre, com uma mostra de vídeo-retratos, para além da vídeo-arte, o artista parece reinventar o próprio teatro. Com 17 retratos que permanecem em loop - depois de subverter conceitos fundamentais do teatro moderno, como a mímese e a dramaturgia, segundo afirma Lehman em seu Teatro Pós-Dramático - Bob Wilson subtrai da cena, digamos assim, o próprio movimento; no limite, a própria cena. De fato, os atores realizam movimentos mínimos: sobretudo com o movimento da respiração e os olhos.



Nos retratos, como um procedimento de apropriação do espetáculo mesmo, estão presentes artistas consagrados ou celebridades internacionais, como é o caso de Brad Pitt ou Johnny Deep - que reproduz a famosa fotografia de Rose Sélavy - mas também um mecânico californiano e uma pantera negra. Todas as imagens trazem algo de econômico no quadro e, ao mesmo tempo, algo de excessivo, exuberante e bizarro. O paradoxo consiste em tirar movimento de onde, em uma ficção, não se espera. Não é aleatório, por isso, que seja exatamente o olho e a respiração que, principalmente, nos digam sobre a existência do tempo: o olho talvez seja o maior testemunho da história do retrato; a respiração, da vida. "A natureza morta é a vida real", diz enfim o título do texto de Bob Wilson.

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