8.11.10

Vila-Matas por ele mesmo



Dos livros de Enrique Vila-Matas publicados no Brasil, naquelas edições bonitinhas - e bem carinhas - da Cosac, Paris não tem fim é a minha leitura predileta de ônibus. Trata-se de um relato que ironiza seus anos de juventude, quando escrevia seu primeiro livro, no tempo em que viveu em Paris, e ao mesmo tempo uma brincadeira com Hemingway; e tem o grande mérito de ser, das publicações mencionadas, o seu livro mais divertido. Gosto mais do Vila-Matas com um estilo direto, um argumento direto, sem tantos artifícios. Talvez porque, deste modo, sua escrita passa a se fazer basicamente de humor. Por caminhos bem diferentes, seria neste ponto que Vila-Matas se aproximaria de César Aira: abrir mão de fazer literatura para poder, finalmente, fazer humor. O Mal de Montano, por exemplo, na medida em que se sustenta sobre uma série de artifícios literários, um capítulo após o outro, torra um pouco a paciência, pesa. A rigor, é como dizer que gosto mais do Vila-Matas exercendo a função de cronista, mas não é exatamente isso. Também há artifícios em Paris não tem fim - e sua graça, em grande medida, depende deles - mas é como se eles se escondessem, soubessem do seu lugar. Alguém já disse, mas não lembro quem, que o escritor se sai bem melhor quando escreve em primeira pessoa. Pode ser isso: em Paris não tem fim, o uso da primeira pessoa - um escritor escrevendo uma narrativa sobre si próprio quando escrevia o primeiro livro - é levado ao limite. Se tem um assunto que Vila-Matas domina, mais até do que a literatura, é ele próprio.

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