22.12.10

Wim Wenders, apesar do cinema

Como cineasta, não devia dizer isso, mas adoro quadros e adoro fotos. É mais calmante, pode-se passar mais tempo, são muito menos agressivos.
Wim Wenders.

Antes de se tornar cineasta, Wim Wenders estudou pintura; e seu cinema, de muitas maneiras, sempre refletiu isso. Desde a presença de Edward Hopper, que o cineasta chega a copiar em O fim da violência, até a construção de um ritmo de narrativa mais lento, contemplativo, passando por temas e motivos fundamentais da história da pintura - paisagem e cor - pode-se dizer que Wenders procurou fazer pintura, a sua maneira, através da linguagem do audiovisual. O cineasta, mais de uma vez, expressou seu desejo de “salvar as imagens, protegê-las” – talvez um desejo romântico, compartilhado por outros cineastas de sua geração – dando a elas um contexto, uma forma de sustentação e uma história. De outro modo, um dos filmes de Wenders, O amigo americano, mostra o processo mesmo da pintura através da relação entre um artista e leiloeiros.

A mostra de fotografias de Wim Wenders, “Lugares, Estranhos e Quietos”, em cartaz no MASP, guarda uma forte relação com seu cinema, a meu ver – diferente do que afirmou o jornalista Fábio Cypriano, em matéria publicada na Folha de São Paulo – mas também com a própria linguagem da pintura, sem movimento. Há uma fotografia (a fotografia que ilustra o texto) que é exatamente um fotograma de Estrela Solitária, um de seus últimos filmes. Seja como for, a paisagem vazia, o plano horizontal, as passagens, o azul e até mesmo certo humor, tão característicos de filmes como No Decorrer do Tempo e Paris, Texas, agora se repetem nas 23 fotos inéditas que fazem parte da exposição. Ainda nota-se, na exposição, a importância dos títulos, que enfatizam pontos menores das imagens - um banco de praça vermelho ao lado de um navio de guerra, por exemplo - e funcionam como uma espécie de foco narrativo.

No texto de apresentação, Wenders diz que usa o seguinte procedimento para fotografar, nas viagens que realiza: se alguém sugere que você vá à direita, pois lá existe algo pra encontrar, então você deve ir à esquerda. O resultado são imagens de lugares sem qualquer importância – imagens equivalentes àquelas que, no fim de nossas viagens, deletamos do nosso álbum: o resto inútil de nossa memória – mas que conseguem manter um peso estranho, no caso de Wenders, mesmo sem história e sem música, algo impensável em seus filmes. De fato, temos a impressão de que estas imagens, mesmo sem importância, devem continuar no álbum. Pode-se dizer que o cineasta realiza suas fotografias, afinal, com a ambiguidade tão conhecida de seus filmes: como se fosse cinema, apesar do cinema.

Um comentário:

Í.ta** disse...

um dia tu vai ser crítico de cultura em um jornal.

se isso é bom ou ruim, sei lá.

mas acho que vai.