16.12.10

Caça ao tesouro

Faz dois anos, eu produzi um material para publicar no jornal da Fundação Catarinense de Cultura, a pedidos. Ontem de tarde, após rodadas de negociação - dois anos, dois meses e sete dias depois, exatamente - recebi o pagamento pelo serviço prestado: R$150 (cento e cinquenta reais). Daqui em diante, se minha memória não falhar, relato os principais fatos que separam uma data da outra.

O convite, que veio de uma editoria anterior, pedia que eu acompanhasse a seleção do Salão Victor Meirelles, aberto em dezembro de 2008, entrevistasse alguém da comissão de seleção e produzisse um texto. Por uma série de motivos que não tem muito interesse para a história - inclusive motivos financeiros (na época, acho que eu ainda era estudante de graduação, pagava aluguel, estas coisas) - resolvi aceitar. O acontecimento mais curioso desta primeira parte diz respeito a um telefonema que recebi de uma das editoras: ela pedia que eu enviasse, urgentemente, os meus dados - inclusive o número do PIS/PASEP, vejam que ironia - para que o pagamento fosse realizado o quanto antes.

Para produzir o material, passei um final de semana ao lado da comissão de seleção, escrevi um texto sobre o processo e entrevistei o Paulo Herkenhoff. Fora alguns dilemas éticos, que levaria muito tempo pra explicar - além de eu não ter como provar - foi um processo interessante. Aliás, de todos os dilemas, digamos, há um que pode ser, pelo menos, sugerido: por que, ao invés de selecionar trinta artistas, como estava divulgado no edital, a comissão selecionou apenas vinte e nove? Será que não havia mais um artista, em quase mil inscrições, com condições de ser selecionado? O pedido veio do Diretor do Museu. A questão é que cada selecionado receberia R$5.000 (cinco mil reais) como premiação. Outra curiosidade: por que o catálogo jamais foi publicado? Tudo estava orçado.

A idéia era que o número do jornal fosse um especial sobre o Salão. O jornal pagaria R$400 (quatrocentos reais) por texto; eu produziria um texto e uma entrevista. O material foi feito, revisado, enviado para a editoria do jornal, tudo bem bonito, tudo a tempo, e o jornal acabou saindo quando o Salão já havia terminado, exatamente um ano depois. O Salão acabou em fevereiro de 2009, se não me falha a memória; em março, enviei um e-mail pra editoria pedindo notícias e recebi esta resposta: "Oi, Victor! Ainda estamos ajustando projetos para 2009, por isso não posso te precisar quando o próximo O Catarina será publicado, nem quando seu pagamento será feito. Apenas posso garantir que você receberá pelo trabalho. (...)" Devia ter respondido: se não tem uma notícia decente, por que o ponto de exclamação?

Em novembro de 2009, quando o jornal foi publicado, enviei outro e-mail e recebi um telefonema. Não lembro o que me diziam. Nada novo. A editoria do jornal mudou; a assessoria de imprensa da FCC também. Durante todo o ano de 2010, nenhuma notícia. A estas alturas, eu estava interessado mais em encher o saco do que receber qualquer coisa. Então resolvi fazer uma visita no CIC, que está em reformas há quase dois anos, e escrevi um pequeno texto cujo argumento era o seguinte: os funcionários dentro do Museu fazendo coisa nenhuma sugere a própria inoperância da arte contemporânea. Recebi um telefonema dois dias depois, em novembro. Pensei que fosse uma retaliação, mas não; solicitavam o número da minha conta.

Não pagaram. Passou mais um mês até eu receber outro e-mail, que perguntava o seguinte: Podes passar aqui na Fundação até quinta-feira (16/12/2010) para receber o dinheiro? Mas o dinheiro não seria depositado na conta? Bem, não perdi a oportunidade. Fui recebido com um discurso triste. As coisas andam difíceis. Decerto andam. Ganhei um envelope - bem improvisado, por sinal. Tive um pouco de medo ao abrir. Três notas de cinquenta reais. Bem, refleti, pelo menos não são quinze notas de dez. Se for descontado telefonemas, desvalorização da moeda, transporte público e a pilha do gravador, resta cinquenta, sessenta. Comprei tudo de cerveja e aspirina que serviu, pelo menos, pra não ficar de ressaca.

Nota triste: as coisas tendem a piorar nos próximos quatro anos.

6 comentários:

Fabricio C. Boppré disse...

Enquanto isso, nossos prefeitos, vereadores e outros digníssimos figurões negociam seus subornos e mensalões de 200, 300, sei lá quantas centenas de mil reais.

andré disse...

André Cechinel

Ag: 1453-2
CC: 13191-1

Também escrevi um texto para "Ô Catarina", em 2008, e até agora não recebi nada dos meus R$ 400. Se o teu blog agilizou uma graninha para ti, pode agilizar para mim também. Tô topando qualquer coisa... Na realidade, de R$ 75 para cima.

E, se for preciso, busco também o envelope.

Anônimo disse...

muito bom!!

Anônimo disse...

Os artistas, em Santa Catarina, são tratados pelas instituições como um bando de adolescentes.Há coisas piores do que esta acontecendo! Você sabe.

Í.ta** disse...

foi muito bom teres postado isso. eu achei.

sabes que eu fui aprovado para realizar uma pesquisa agora em 2010 pela fapesc e tal, lá pela univille. era pra receber 300 por mês. dez meses. 3000 pilas. recebi 1200. o que faltou eles dizem: não temos como pagar.

abraços.

miimss disse...

Falando em FAPESC, também fui 'contemplada' com uma bolsa de pesquisa dessa Fundação durante dois anos.

Durante o primeiro ano recebi beeeeem menos do que dizia no edital (ao invés de uma bolsa de 1,200 ao mês, 900 reais) e só comecei a receber depois de 5 meses de atraso.

No ano seguinte fiquei esperando, após a correção do valor das parcelas, o pagamento retroativo das anteriores.

Ainda espero.