18.12.10

Escrita, espaço, instalação [dois ou três textos de Ricardo Lísias]

Por Victor da Rosa, para Sopro

Dois textos recentes de Ricardo Lísias, com naturezas semelhantes – não se trata exatamente de dois livros – chegaram pelo correio, recentemente, um depois do outro. O primeiro deles, Fisiologia da Solidão, uma plaquete editada pela Espectro Editorial, parece um pequeno ensaio sobre processo de criação, mas deve ser, digamos com certa prudência, um conto; e o segundo, Artes Plásticas, enviado pelo próprio autor, que chegou dentro de um envelope azul, impresso em folhas de formato A4, todas soltas – há sempre o risco de embaralhar a sequência e remontar a narrativa – com um selo, um carimbo, um cartaz, um timbre, uma notícia de jornal, enfim, tudotambém deve formar um conto.



O correio, neste caso, é o caminho mais provável – ou, a rigor, o único caminho possível – de circulação; em outras palavras, o correio torna-se uma espécie de suplemento do próprio texto, um excesso que já constitui sua ficção: a mediação é a mensagem. É certo que em Artes Plásticas o processo da circulação por correspondência é ainda mais importante, já que o conto tematiza, expõe – manipulando, inclusive, um timbre dos Correios – e mimetiza, portanto, o circuito em que está inserido; mas no caso de Fisiologia da Solidão, editado por um selo essencialmente de poesia, com apenas oitenta exemplares, todos carimbados, a circulação alternativa também procura uma imagem que está no nome do projeto editorial: a imagem do fantasma. Enfim, a circulação restrita, o envio pessoal, a construção artesanal do suporte, tudo parece mover-se como parte de um projeto poético – de autoria, mas também de edição.

Artes Plásticas tem uma espécie de enredo muito vago, dividido em duas partes, que possuem algumas relações entre si, mas também diferenças fundamentais. Na primeira parte, depara-se com um artista plástico falando sobre um processo mais ou menos fracassado de construção de um objeto, uma pasta; na segunda parte, impressa em folhas amarelas, o leitor tem contato com uma série de documentos do publicitário João Tobias – e-mails, um telegrama, a notícia de sua morte, o resumo de um projeto de documentário que pretende tratar da “ascenção [sic] dos governos da esquerda bolivariana na América do Sul”, dentre outros – que também exibe a sua maneira, em forma de pastiche acadêmico, um processo fracassado; em e-mail a um professor da USP, por exemplo, Tobias escreve: “Obrigado por ter lido o meu projeto de mestrado sobre as esquerdas bolivarianas com tanta rapidez. Devo dizer que a sua recusa incondicional me decepcionou um pouco. Peço que o senhor reconsidere”. Na primeira parte, o leitor é levado a acreditar, através de uma série de pistas incertas – sabe-se que Ricardo Lísias joga xadrez, por exemplo – que quem enuncia é o próprio escritor; na segunda, está mais claro que se trata de uma ficção, embora paradoxalmente seja realizada inteiramente com documentos.

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