5.12.10

Hélio Oiticica acabou!


O escritor anarquista Hakim Bey, em seu teoria do TAZ - Zona Autônoma Temporária, já aconselha a pirataria como uma forma possível de levante. Piratão, uma ação realizada pelo coletivo Filé de Peixe, do Rio de Janeiro, consiste nisso: comercializar vídeo-arte - de artistas consagrados e emergentes, nacionais e internacionais - através de comércio informal. Tanto o preço dos vídeos, três por dez reais, livremente inspirado nos camelódromos da Uruguaiana; quanto a sua aparência tosca, com telas aramadas, embalagens de plástico, capas xerocadas; e finalmente a forma de vendê-los, através de anúncios realizados em um mega-fone, tudo se move pela apropriação - e não pela simulação - da pirataria.

O coletivo, a rigor, não quer fazer teatro. Com uma espécie de barraquinha expositiva e uma televisão com DVD - que serve, ao mesmo tempo, para verificar a qualidade do produto e para exibi-lo - os performers se instalam tanto em eventos de arte, embora quase sempre (nem sempre) realizem suas ações na rua, quanto nos camelódromos mesmo, provavelmente se confundindo, neste caso, com outros vendedores informais e levando ao limite a informação que considero a mais radical da performance: sua ilegalidade. Afinal, não adianta dizer para um fiscal da prefeitura - não é um curador - que aquilo é arte.

A estratégia do coletivo é simples e parece eficiente. A pirataria aparece como um procedimento que torna possível 1) ironizar o mercado - usando, de algum modo, sua própria técnica; 2) criar um dispositivo pós-estético (político, portanto) para a arte. confundindo ficção e documento; e 3) até mesmo, com as vendas, democratizar idéias e mídias de arte. A performance, que foi feita em cinco estados diferentes, com mais de dez edições - a primeira edição aconteceu em maio do ano passado - já conseguiu vender em torno de 3.000 vídeos piratas, segundo sua contabilidade, que informa também os artistas mais vendidos em todas as edições. Se a performance não altera as regras do mercado da arte, consegue ao menos criar uma zona autônoma e temporária.

Um comentário:

Anônimo disse...

Muito bom, Victor! Adoramos o texto! Conciso, toca nos pontos mais relevantes do projeto, ressaltando muito bem a ironia e malícia do Piratão.
Valeu, vamos trocar idéias! Grande abraço!
Filé de Peixe