1.12.10

John Cage e os cogumelos

John Cage, que não tinha concentração suficiente para ser um grande jogador de xadrez, como Duchamp, tornou-se especialista em cogumelos, embora não se interessasse exatamente (pelo menos é que nos garante Augusto de Campos) por seus efeitos alucinógenos. De qualquer modo, cultivar, colecionar e comer cogumelos também deve exigir alguma concentração, já que há cogumelos venenosos, por exemplo, dentre outras coisas, e Cage mesmo disse que não se pode brincar com eles: "cage disse: / marcel duchamp aprendeu / e eu também / através da filosofia indiana / que algumas vezes você usa o acaso / e outras, não / os cogumelos são uma dessas ocasiões / em que você não pode usar o acaso / porque você corre o risco de se matar", escreve Augusto.

É conhecida também a história de que certo dia ganhou seis mil dólares, em um concurso de TV italiano, respondendo a perguntas sobre os fungos - aliás, um dia depois, em um trem, ao ver que Cage continuava lendo sobre cogumelos, uma moça disse que ele não precisava mais estudar aquele assunto, pois já tinha vencido o concurso. Durante algum tempo, várias pessoas na Itália sequer desconfiavam que Cage era artista; em todo caso, era um especialista em cogumelos. Cage acreditava que os seres humanos eram como os cogumelos: dentro de uma mesma espécie há vários tipos que se juntam em grupos. Além disso, também achava que, na sua diversidade, os cogumelos construíam laços dependendo da vida interior. Em resumo, uma viagem.

Em uma das vezes que Cage veio ao Brasil, em 1985, pra participar da Bienal de São Paulo - na outra visita da qual tenho notícias, mais de dez anos antes, Cage foi fichado na polícia por sua participação em um congresso anarquista, em pleno período de ditadura, quando aliás deu uma conferência sobre... cogumelos - na Bienal, digo, Cage foi presenteado, por um fã, com um pacote de fungos brasileiros. O fã era o músico Mário Manga, que na época ainda não tinha trinta anos, do grupo Premeditando o Breque. "Eu comprei na feira de Moema e achei que ele ia gostar", disse Manga na ocasião. Sem saber o que fazer com aquilo, parece, Cage passou o pacote para Augusto de Campos. Vinte anos depois, Manga compõe para a Bienal do Mercosul um som experimental intitulado: Você comeu os cogumelos que eu te dei?


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“Em Darmstadt, quando eu não estava envolvido com música, estava nos bosques procurando cogumelos. Um dia, quando colhia alguns Hypholomas que tinham crescido num toco perto da sala de concertos, uma senhora, secretária dos Ferienkurse für Neue Musik, chegou-se e disse: Afinal a Natureza é melhor do que a arte.” (JC)

2 comentários:

Í.ta** disse...

recentemente eu também li "carta a d". achei o formato do livro - e o próprio livro - algo maravilhoso. tá'qui na minha estante, em destaque há um tempo já :)

Victor da Rosa disse...

linda esta carta.