27.12.10

Uma prévia poética, dez

Uma antologia, como se sabe, é um esforço com muitos riscos. Sabe-se de sua importância no que se refere a um mapeamento da produção contemporânea, sobretudo quando é realizada por um crítico que conhece e estuda esta produção - se tratando de poesia, objeto pouco visível, o esforço torna-se mais digno ou mesmo mais difícil - mas uma antologia também exibe uma espécie de poder, que surge do próprio gesto de classificar, colocar em ordem. De fato, o gesto de recortar, neste caso, é sempre remédio e veneno: torna um objeto visível, mas também oculta outros; sugere singularidades, mas também normas, panoramas. A antologia Prévia Poesia (Risco Editorial, 2010), organizada pelo poeta e crítico André Dick, enfim, é uma reunião de poetas ainda pouco conhecidos, mas não muito - ficamos assim: não há consagrados - e de poemas, todos eles, inéditos; sendo que esta característica nos diz sobre o último risco: estamos diante do que existe de mais contingente, do poema antes de chegar ao livro, talvez do poema enquanto processo mesmo e não produto.

A antologia está composta por dez poetas, com seis poemas de cada um, sem que isso seja regra, e um texto de apresentação escrito pelo próprio André Dick, intitulado "Uma prévia poética" - mas o texto da orelha, que não é assinado, nos diz que se trata da primeira publicação de uma Série que pretende se transformar "num espaço para discussão da poesia contemporânea". Um dos méritos de Prévia Poesia, primeiro, é o tamanho: Dick não quis contar a história da poesia brasileira em duas laudas, como acontece com a antologia de Manuel da Costa Pinto, por exemplo, embora queira, sim, apresentar um grupo - a antologia tem poetas com objetivos muito diferentes, nascidos em lugares bem diferentes do país, pertencentes a uma geração que começa a produzir na década de noventa, mas principalmente na última - e os poemas reunidos conseguem nos dar alguma idéia daquilo que cada poeta pretende; e o outro métito da antologia, afinal, é a boa qualidade dos poemas, com poucas exceções, que se equilibram na própria diferença entre eles.

Em seu texto de apresentação, André Dick nos diz mais de uma tradição brasileira das últimas décadas, com as principais discussões sobre poesia no século XX, do que dos próprios poemas e poetas da antologia, procurando refletir, com Octavio Paz, João Cabral e T.S Eliot, entre outros, sobre o que vem a ser as idéias de tradição e ruptura - a rigor, em outros termos, sobre a natureza da própria antologia. Neste sentido, pode-se dizer que as preocupações de Dick, nesta apresentação, estão ligadas a noções essencialmente modernas, ou seja: trata-se de um entendimento da prévia poesia contemporânea brasileira a partir de certas conquistas do século XX - conquistas que poderiam ser resumidas no paideuma concreto. No final de seu texto, quando comenta os poetas da antologia, o crítico procura justamente atar algumas pontas do fio para formar sua rede: "há poemas em diálogo aberto com o barroco"; há outros que lidam "com o espaço gráfico da página e a síntese"; há "aqueles que recuperam a imagem e a sonoridade de um Eliot, dos provençais"; outros "se aproximam pelo olhar desautomatizado sobre o cotidiano"; e há, enfim, "uma relação com a palavra concreta (...) e certo resíduo surrealista" (p. 21-22).

Fica claro que André Dick, com Prévia Poesia, não quer realizar um manifesto, digamos; pelo contrário, há certa abertura para dicções que convivem de maneira tensa, desde que realizadas, segundo seus critérios, com consistência crítica e técnica. No último parágrafo de sua apresentação, Dick conclui o seguinte: "(...) cada um desses poetas tem consciência de linguagem e caminha por um processo de construção, de leituras. Neles, é por meio do diálogo crítico que se compõe a influência de diversos movimentos" (p. 25). Talvez o valor possível de uma antologia seja mesmo este: mostrar escritas possíveis, fazer conviver as diferenças sem que sejam muito domesticadas, olhar para o passado com os pés no futuro; sendo que, neste caso, o passado é um arquivo que se pode acessar, está disponível, e do futuro só se conhece uma nota prévia. Uma prévia poética, neste caso, no plural, talvez sejam dez.

Prévia Poesia: André Ricardo Aguiar / Andréa Catrópa / Casé Lontra Marques / Cláudio Trindade / Eduardo Jorge / Fabrício Marques / Izabela Leal / Ranieri Ribas / Simone Homem de Mello / Tatiana Pequeno / André Dick (org)

4 comentários:

Í.ta** disse...

falando nisso,

eu li aquele livro organizado pela priscila lopes e pela aline gallina, no qual teus versos se fazem presentes.

gostei pacas!

abraços.

Pádua Fernandes disse...

Prezado Victor da Rosa,
e dos poemas, o que você achou, além de serem mais processo do que produto?
Abraços,
Pádua

Victor da Rosa disse...

Olá, Pádua!
Acaba que não rolou de comentar cada poeta da antologia, pois ficaria muito grande; também não quis comentar um ou outro; etc.
Acho que os poemas, de modo geral, são legais.
Acompanho a produção do Cláudio Trindade faz muitos anos, gosto muito. Os poemas da Simone de Mello eu não conhecia, são bem bonitos. Mas a história é longa.
Você tem a antologia? O que achou?
Um abraço,

Pádua Fernandes disse...

Obrigado, Victor. Perguntei porque não sabia da antologia e não a vi ainda. Tive notícia só por meio de suas três linhas.
Fiquei curioso porque conheço André Dick (ele escreveu sobre mim aqui: http://unisinos.br/blog/ihu/2009/04/01/as-artes-extraliterarias-em-padua-fernandes/), mas não esses poetas.
Abraços, Pádua.