13.1.11

Literatura anã



Não poderia haver título mais preciso para as instalações da escritora Veronica Stigger: Pré-histórias - a saber, aquilo que não está na história, que ainda não formou narrativa, mas que, de algum modo, de um modo torto e inadequado, quer fazer parte dela. Publicados na última edição do Sopro, mas exibidos há dois meses em uma mostra de Arte do SESC, em São Paulo - quando alguns foram censurados - pode-se dizer que estes pequenos textos de Stigger possuem uma natureza complexa que talvez se esconda por trás de sua aparência tosca: misto de poema curto, ready-made, frase de chiclete, cantigas de maldizer, ensinamentos de para-choque de caminhão, contra-propaganda, enfim, uma "arqueologia da linguagem do presente", como diz a própria autora com uma ponta de ironia, mas também com justiça. Ao mesmo tempo, através de sua elaboração visual - que atribui aos textos um ritmo e principalmente certo humor que eles não teriam (ao menos da mesma maneira) em uma página impressa - as Pré-histórias de Stigger parecem recuperar justamente uma tradição da escrita político-literária feita em cartazes, tão importante para um poeta como Maiakósvki, mas explorada com certa consistência desde meados do século XIX, por poetas e pintores como Mallarmé e Toulouse Lautrec.

Com Pré-histórias, de fato - e o plural talvez nos diga que elas podem ser intermináveis, estão a todo o tempo a nossa volta, informes - Veronica Stigger dá sequência a um projeto que está anunciado em seus dois livros anteriores: Gran Cabaret Demenzial (2007) e Os anões (2010), em que a velocidade da escrita, sobretudo, às vezes muito próxima da fala, parece pedir uma forma também pré-literária, se entendemos literatura como artifício de construção. De outro modo, atenta ao vestígio, Veronica parece mais próxima do arqueólogo mesmo, e não do romancista. Não é por acaso, aliás, que já alguns contos dos livros apareçam em forma de teatro e também em forma de poema, em contraponto com a prosa, mesmo não sendo exatamente poema, com tipografia alterada, cores, cortes secos, etc - ou melhor, mesmo sendo algo indistinto, sem gênero definido - como "Luana", conto do Gran Cabaret: "LUANA, coroa baiana / tarada por anal de 4 quente / na cama garganta / profunda oral até o fim". Pode-se dizer que, com estas instalações, ao procurar uma forma fora do livro, fazendo dobrar o enunciado com a própria imagem, Veronica radicaliza o procedimento de sua escrita e vai um pouco mais longe na sua provável procura por uma literatura estranha a ela mesma, digamos, uma literatura anã.

Um comentário:

Anônimo disse...

Kabakov: http://homelessmonalisa.darq.uc.pt/sampling/ilya_kabakov.htm