6.1.11

Má língua



Zuleika Zimbábue, na minha opinião, é a melhor cronista da ilha - a rigor, aliás, é a única, já que os colunistas de jornais diários não fazem necessariamente crônica, mas não é por isso que Zuleika é a melhor. Criada pelo ator Paulo Vasilescu há alguns anos, Zuleika faz de tudo um pouco, digamos assim: canta, dança, rebola - mas não muito, pois há algo de durona nela (digo sem qualquer ambiguidade) - e fala mal dos outros, principalmente. Sua aparição, segundo o padrão contínuo da crônica - diferente do poeta, o cronista não pode desaparecer - geralmente é semanal: todas as terças, sempre no Blues Velvet, a partir das dez da noite. Ao que consta, Zuleika Zimbábue não dorme cedo.

No entanto, Zuleika também subverte a crônica. Uma de suas graças é que nem todo mundo gosta dela - minha prima, por exemplo, ficou horrorizada com uma de suas performances. Seja como for, não se pode dizer que suas aparições são agradáveis, ou seja, que contemporizam com o gosto médio, como faz quase todo cronista. De outro modo, apesar de também escrever - a performance começa já com os textos de divulgação - Zuleika é boa mesmo no oral: sua voz de macho, seu figurino meio punk e seu sentido de improvisação, traços que a escrita naturalmente apaga, são fundamentais. Outra particularidade de sua crônica é que seus interlocutores são necessariamente bêbados.

O procedimento de Zuleika, como uma espécie de meta-tudo - agora, sim, digo com ambiguidade - consiste em associar temas e formas de narrativa distantes entre si: do colunismo ao submundo, das revistas de moda aos inferninhos, do apresentador de auditório ao ícone punk, de Foucault à Glória Perez, do bordão à palavra obscena. Pode-se dizer que a história do bordão, aliás, se confunde com a própria história da crônica, pois o bordão, diferente do obsceno, está ligado à identificação imediata entre escritor e a massa de seus leitores - Zé Simão, por exemplo, escreve com bordões. Os dois bordões mais conhecidos de Zuleika, curiosamente, são obscenos: o patrocinador "meu cú cabelereiros" e a referência ao próprio pau como um "clitóris avantajado". Zuleika Zimbábue, segundo as más línguas, é mulher.

8 comentários:

jean mafra em minúsculas disse...

lindo, victor.
muito apropriado. adoraria ter escrito isso, mas jamais o faria tão bem.

parabéns.

Fifo Lima disse...

boa língua!

Anônimo disse...

Ameeei o meta-tudo! Vou adotar!!

Victor da Rosa disse...

Já começou a baixar as bichinhas.

gilvas disse...

tem de olhar para zuleika para reparar que ela não fala "meu cu", mas sim "meokú", uma coisa mais antropofágica pós contemporânea.

Christiano Scheiner disse...

Viccccccccccccccccc!!! Foi uma surpresa me deparar com esse texto! E estás ficando cada vez melhor em escrever sobre o que acontece ao vivo ;) dos vivos! de nós! Sou-te fã, babie ;) Parabéns!

Í.ta** disse...

eu fico boiando nessas postagens :)

Débora Poulain disse...

o resgate do jornalismo literário que santa catarina nunca teve. teu texto flui e torna qualquer figura interessante. sem contar que sabes escolher as figuras, rs!