23.1.11

Poses & posições

As fotografias me causam uma espécie de fascínio bem próximo do vício. Não digo as fotografias de arte; e sim estas fotografias banais que se escondem em álbuns empoeirados (são guardadas como se fosse um tesouro, a sete chaves, quando na verdade ninguém dá muita importância a elas) ou mesmo aquelas fotografias mal enquadradas que se exibem, aos montes, em perfis de redes sociais. As fotografias que me agradam, com uma exceção, podem ser de qualquer tipo: velhas ou novas; casual ou com pose; preto e branco ou coloridas; de famosos ou anônimos; de amigos queridos ou completos desconhecidos; sérias ou engraçadas; podem retratar grandes acontecimentos, enfim, ou eventos corriqueiros. A condição para que eu goste delas, talvez a única condição, é que representem pessoas.

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Fotografias de escritores, neste sentido, são um gênero à parte; de algum modo, elas prolongam o retrato burguês da história da pintura, mas já sob o signo da reprodução. Desde o final do século XIX, pelo menos - pois antes os escritores apareciam justamente na pintura, como é o caso do retrato de Baudelaire, realizado por Coubert - a imagem do escritor é praticamente um índice de sua própria literatura. Muitas vezes, estas fotografias ocupam uma zona indeterminada - e de algum modo interessante - entre registro documental e performance. Se Guy Debórd define a sociedade do espetáculo como uma mediação social realizada através de imagens vazias, a imagem do escritor, na maioria das vezes, torna-se provavelmente o primeiro meio - absolutamente vazio, como queira (talvez venha disso o seu fascínio) - através do qual é estabelecido uma relação do leitor com o autor.



Roland Barthes, amante e teórico de fotografias, nos conta o seguinte: uma das atendentes de um café parisiense, um café que o escritor já frequentava há dez anos, ao vê-lo falar na televisão e descobrir que era um escritor famoso, pediu um de seus livros de presente; Barthes presenteou a moça com O Império dos Signos, o mais ilustrado de todos os seus livros. Um dos escritores mais fotogrados de sua geração, sempre em pose, Barthes conduziu sua reflexão sobre a fotografia, ao lado da moda, já sabendo que estava pisando em terreno espinhoso: não há nada que pareça tanto com a morte quanto uma fotografia. O negativo francês de Barthes talvez seja exatamente Maurice Blanchot: além de ter uma vida social muito limitada, são raríssimas as fotografias em que Blanchot aparece. Seja como for, parece que jamais o fotógrafo repetiu tanto o mesmo enunciado: antes de ser escritor, será necessário se parecer com ele.

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