3.1.11

Tarantino e o Biscoito Fino

Dentre outros motivos, Tarantino impressiona por sua capacidade de fazer vários filmes dentro de um só. À Prova de Morte, de 2007, último de seus filmes lançado no Brasil, em DVD, embora seja anterior e menos festejado do que Bastardos Inglórios, nos coloca diante de uma pergunta que Tarantino parece sempre repetir: como é possível fazer, ao mesmo tempo, arte com entretenimento? Em grande parte, o desejo da arte de vanguarda foi este: "a massa ainda correrá o biscoito fino que fabrico", disse Oswald. A rigor, Tarantino consegue oferecer possibilidades de leitura ao espectador mais ingênuo e ao crítico mais sofisticado. Talvez Wim Wenders tenha tentado fazer exatamente isso quando passou a realizar filmes com a indústria americana, mas não conseguiu; seus filmes americanos, no limite, não conseguem ser nem arte e nem entretenimento.


[ Tarantino dirige Kurt Russel ]

À Prova de Morte deixa tudo isso muito claro porque pode ser cortejado com outro filme, de outro diretor, mas realizado segundo o mesmo projeto: Planeta Terror, de Robert Rodriguez - nos Estados Unidos, ambos foram lançados dentro de uma mesma caixa, mas no Brasil, por interesses comerciais, sofreram uma separação. A idéia é que os dois filmes recuperassem a estética B, recorrente em filmes da década de oitenta, e ambos o fazem. A diferença é que Rodriguez respeita e até mesmo fetichiza o gênero; e Tarantino, por sua vez, se apropria, usa o gênero como se fosse matéria. O procedimento da apropriação, como se sabe, é muito caro a Tarantino, e está em tudo que o cineasta faz, desde a escolha dos atores e da triha sonora até a construção da narrativa. O lixo, para Tarantino, em um processo inverso, não é exatamente algo que se possa jogar fora: é biscoito fino.

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