21.2.11

Cadê você, cadê você



Imagino que o futebol, que se institucionaliza no momento em que surgem as vanguardas históricas - as primeiras Copas oficiais, por exemplo, acontecem no começo da década de trinta - alcança algo que a arte não conseguiu alcançar, embora tenha tentado: o entusiasmo das massas. Oswald de Andrade, que não gostava muito de futebol, sonhou um dia: “a massa ainda comerá do biscoito fino que eu fabrico". Diante da profecia frustrada de Oswald, porém, está a ironia certeira de Marcel Duchamp, ao sugerir que os happenings introduziram na arte um elemento que ninguém havia colocado: o aborrecimento. "Fazer uma coisa para aborrecer as pessoas que estão vendo, nunca havia pensado nisso!", diz Duchamp. Trocando em miúdos, o conceito de arte relacional, se colocado ao lado da velha geral do Maracanã, não passa de uma ninharia.

Talvez seja justamente o entusiasmo da multidão - a perda do sentido, o excesso, a euforia, até mesmo a loucura - o motivo mais recorrente em peças de arte que tematizam o futebol. No entanto, são poucas as peças que conseguem chegar, digamos, na intermediária. A maioria dos artistas, quando não cai no estereótipo, fica no aborrecimento mesmo. O recente documentário Geral, um curta-metragem da carioca Anna Azevedo - exibido no 3 Festival do Júri Popular - é uma exceção da regra. Eu diria que a proposta da cineasta consegue fazer do futebol, mais do que um tema, o procedimento mesmo de seu filme. Em outras palavras, o documentário trata da geral do Maracanã e nos mostra, ao mesmo tempo, em forma de cinema, o seu ponto de vista; sendo mais claro: a sua singularidade. A proposta é complexa sobretudo porque, neste caso, além de entender de cinema, naturalmente, é preciso também conhecer de futebol.

Geral faz uma espécie de antropologia do invisível: documenta uma comunidade que está no limite do desaparecimento. A cineasta sabe disso, enquanto filma, e deseja que o espectador também saiba: um letreiro na abertura do filme nos diz que as imagens são do ano de 2005, "durante os últimos cinco jogos anteriores ao fim da Geral do Maracanã". Depois, Anna lida de maneira precisa com formas diferentes de fazer documentário: 1) o testemunho de um torcedor do Fluminense - apenas ele é entrevistado no filme - assíduo frequentador da geral; 2) imagens da multidão na geral, em diferentes situações, lembrando o documentário de Joaquim Pedro de Andrade sobre o Garrincha; 3) alguns planos-sequência de torcedores no meio da multidão, sempre sem ridicularizá-los, mas também sem qualquer omissão; 4) e os próprios jogos de futebol vistos segundo os ângulos truncados da geral, muito perto do chão.

De outro modo, o filme trata seu material sem juízos de valor, preconceito, mas também sem qualquer fetiche. Tudo no filme, pelo contrário, parece ambivalente, atravessado por situações circulares, retornos. As imagens da multidão, portanto, servem de contraponto ao testemunho solitário do torcedor, que é entrevistado no estádio absolutamente vazio. O barulho da torcida é cortado por momentos de absoluto silêncio. Os insultos pelas declarações de amor. A alegria pela tristeza. O plural e o singular. Não há som exterior, aliás: toda a música do filme é retirada do próprio estádio. O procedimento do corte é quase sempre seco, interrompendo as cenas no meio, enfatizando o caráter fragmentário da geral, resultado de uma montagem primorosa. Em Geral, enfim, talvez a pergunta chave esteja no próprio canto da torcida do Flamengo, presente nas primeiras cenas do documentário: êêê, cadê você, cadê você.


8 comentários:

Anônimo disse...

gostei muito. brigadão.

Anônimo disse...

geraldinos e arquibaldos, vc conhece? uma pérola do gonzaguinha.
aqui, de presente:

http://www.youtube.com/watch?v=dBUb8QdqenU

bj

ah, vou usar esse vídeo em aula para discutir espaço público. depois te conto no que deu. valeu mesmo!

Anônimo disse...

mandei a versão das chicas. é boa, mas a histórica é melhor: bocas de sino, ditatura e irreverência.

Anônimo disse...

futebol superior à arte??! é cada absurdo que eu leio neste blog!!

Victor da Rosa disse...

Meu Deus! Cada anônimo pensa uma coisa diferente! Isso, sim, que é o singular-plural...

Vou ver o Gonzaguinha quando chegar em casa. Obrigado.

jean mafra em minúsculas disse...

muito bom, victor!!!

Í.ta** disse...

tu já foi no maraca, victor?

Victor da Rosa disse...

já, ... vazio, no passeio da escola!