8.2.11

Isso não é Brancusi

Em 1926, quando as pessoas ainda sabiam definir bem o que era arte, aconteceu um fato curioso com uma escultura de Brancusi, intitulada Pássaro no espaço. A obsessão de Brancusi, como pode ser percebido em suas obras, consistia em polir uma superfície bruta - mármore, bronze - até que se apagasse do objeto qualquer vestígio de artesania, em busca de um acabamento mais próximo dos produtos industriais. Assim, ao ser transportada da França para Nova York, de navio, ao lado de outras vinte e cinco esculturas, a peça de Brancusi chamou a atenção dos funcionários da alfândega norte-americana, pois obras de arte, diferente dos objetos industriais - e aquela peça, que não parecia uma obra de arte, segundo os críticos de plantão, mas uma pá de hélice ou algo do tipo - poderiam entrar no país livres de taxas. Em outras palavras, os funcionários da alfândega perceberam o que a maioria dos críticos de arte ainda não havia percebido: a semelhança entre Brancusi e Duchamp. Não tenho informação se a taxa foi paga ou não, no fim das contas - ou seja, se alguém da transportadora conseguiu convencer os funcionários de que a escultura do artista era, de fato, uma escultura de artista - mas aposto que Brancusi, que não tem nada a ver com isso, ficou lisonjeado com a história.

8 comentários:

Kamilla Nunes disse...

Hoje, meu caro, alguém que você conheça conseguiu definir o que é arte? Apresente-me, porque (quase) todos, dizem, ou são filhos, de Duchamp.

Victor da Rosa disse...

Olá, Kamilla,
se entendi bem, acho que você não leu direito a minha frase.
Eu digo justamente que no modernismo a definição era mais clara; supondo que definir a arte contemporânea é mais difícil.
Estamos de acordo, infelizmente.

Kamilla Nunes disse...

Estou falando de Arte, não de arte contemporânea. A definição continua sendo uma grande fabulação. Assim creio eu. Mas esse papo é chato, deixemos pros butecos da vida.

Anônimo disse...

Se arte não existe, manda fechar a UDESC!!

Kamilla Nunes disse...

Alguém falou em inexistência de arte?

Victor da Rosa disse...

O que eu quis dizer é que a arte moderna ainda cria uma separação em relação à vida - a moldura da pintura; o suporte da escultura; o próprio Museu (mas não só isso) - e, na medida desta separação, afirma sua situação artística, digamos. A arte moderna é arte, neste sentido, dentre outras coisas, porque não se confunde com a vida. Há uma certa estabilidade nisso - ou pelo menos uma crença de que a estabilidade existe. O caso de Brancusi, neste sentido, parece fronteiriço. A situação descrita no post é exemplar. Daí, a meu ver, a sua graça.

Gabriel Knoll disse...

Se a arte, antigamente, vinha de um apreço clássico pelo conhecimento, hoje, como não temos ensinamentos deste tipo, o jargão arte serve para qualquer coisa que não se encaixa em nenhuma "prateleira", assim como todo e qualquer pensamento que não cabe em alguma ciência é dito "filosofia". :D

Grande Vitinho!
Por esta tu não esperavas, né? Vitinho é de muito tempo atrás.

Victor da Rosa disse...

"Vitinho", sim, é de "antigamente"! Abração, meu caro.