28.2.11

Kerouac e Zeca Pagodinho

Os artistas, como se sabe, precisam cada vez falar mais: ter opiniões, algum empenho na vida pública, defender a própria obra, estas coisas. Isso pode ser uma contingência - afinal, como queira, as coisas mudaram - mas pode ser também um sintoma de que estamos, talvez, mais histriônicos. A entrevista, neste contexto, tornou-se o meio mais recorrente através do qual o artista fala. Mais do que um meio, a entrevista tornou-se um fim em si. Silviano Santiago chegou a pensá-la como um gênero, uma forma de linguagem que passa a ter normas próprias, estilos, estratégias. Nisso, há muitas variantes, muitas coisas a discutir, e muitas coisas até complicadas, mas nada disso vem ao caso agora. Eu quero só dizer que gosto das entrevistas, de maneira geral, e há duas - uma com Jack Kerouac e outra com Zeca Pagodinho - que sempre volto a ver, como acontece com os clássicos.



A entrevista com Kerouac foi realizada na Itália, em um programa televisivo, provavelmente em meados da década de sessenta; a entrevista com Zeca, por sua vez, é de 1995, feita no programa de um Jô Soares bem mais interessante do que o de hoje. Os dois entrevistados, digamos com franqueza, estão bêbados; ou mais exatamente: Zeca está soltinho, apenas, e Kerouac mal consegue pronunciar as palavras. Em ambas as entrevistas, aliás, a bebida é tema e procedimento, ao mesmo tempo. Kerouak, na prática, realiza uma espécie de jornalismo gonzo: toda a conversa com a italiana Fernanda Pivano é absurda, nada ali faz muito sentido, embora a entrevistadora busque - mais de uma vez - falar sério, estabelecer alguma ordem na comunicação; tudo inútil.

Fernanda Pivano pergunta, por exemplo, aquilo que todo jornalista pergunta a um escritor: Pode nos dizer qual escritor teve influência na sua maneira de escrever? - e recebe a seguinte resposta: Dante não! Pior do que isso, Kerouac interrompe a entrevistadora (inúmeras vezes) pra lhe dar umas cantadas escrotas - "As pessoas lhe odeiam porque você é linda" - e dizer aliterações sem sentido, como se aquilo fosse uma performance dadá: "bum bum bum!" A graça da entrevista, em grande parte, contra o próprio procedimento da entrevista, torna-se justamente esta: a completa falta de entendimento entre Kerouac e a entrevistadora. É como se Kerouac, que fala umas cinco línguas diferentes em cinco minutos, estivesse fazendo uma performance pra ele mesmo. Eu não quero ser uma bicicleta!, diz de repente. De outra maneira, suas provocações também colocam a entrevistadora em situações difíceis: Uma coisa engraçada é que na Itália não tem bons poetas.



A entrevista com Zeca é diferente. Apesar dos dois copos de whisky que provavelmente bebeu antes de entrar no programa, as coisas que ele diz fazem sentido. Pra dizer o mínimo, fazem até bastante sentido. Neste caso, o interesse surge provavelmente do motivo oposto: do completo entrosamento entre o entrevistado e o entrevistador. De fato, é como se Zeca estivesse na sala de casa. Depois dos cinco minutos de entrevista, pede um copo de whisky pro Alex. Antes, faz uma espécie de declaração amorosa pra sua mulher, com fundo musical do piano. Minha mulher é uma uva, resume. Com um jeito meio cínico, provoca riso mesmo quando diz as coisas mais óbvias; ou talvez seja esta uma de suas principais habilidades: explicitar o óbvio, reafirmar a imagem de bom malandro e jogar com ela.

Embora já estivesse exatamente no topo da carreira, Zeca Pagodinho não se preocupa em dizer apenas o que lhe convém. E isso fica claro já no primeiro minuto. Zeca conta histórias hilárias sobre os empregos que teve quando ainda não fazia música: garçom, bicheiro. Além do mais, exerce ali toda a sua qualidade de improvisador. Quando é necessário, escapa de saias justas com uma rapidez surpreendente. Por outro lado, como um excelente narrador, sabe conduzir o interesse do ouvinte através de narrações mais longas, como a história de quando perdeu parte de seu dedo, cortando salame, bêbado, naturalmente. Enfim, as entrevistas, de tão perfeitas, às vezes parecem cenas ensaiadas. É claro que fui procurar outras entrevistas de Kerouac e Zeca Pagodinho, mas não encontrei nada tão bom. A qualidade das entrevistas, afinal de contas, tem este mistério: a impossibilidade da repetição.

3 comentários:

jean mafra em minúsculas disse...

victor,
muito bacana o post. não conhecia nenhuma das entrevistas. mas sou fã dos dois artistas - e por motivos diferentes, claro...

agora, gostaria de fazer uma pequena correção, zeca pagodinho, em 1995, ainda não estava extamente no "topo"... o cantor teve um momento de êxito em meados dos oitenta e depois viu seu desempenho comercial despencar. foi com o disco "samba pras moças" de 1995 que ele assumiu o papel de maior nome do samba contemporâneo (e este termo é bem apropriado, se levarmos em consideração que o trabalho dele não se matém fiel as "raízes"...).

é isso.
abraço.

jade.martins. disse...

Bacana! Não conhecia o seu blog.

Veppo disse...

Victor, Bacana a intertextualidade das entrevistas, mesmo que tênue o fio para além dos copos, eu gostei das duas. Já havia visto a entrevista do Zeca e acho uma das melhores dele. Uma coisa que me chamou muito atenção em uma outra entrevista dele já o Zeca da Brahma versão anos 2000, é que o Jô está bêbado tbém. rola um uisque já no comecinho, dá uma olhada depois. O Kerouac, pra mim, é um caso delicado. Depois de abrir o portão beatnik para a geração caroneira resolveu virar um redneck reacionário e mandou tudo às favas, meio Ferreira Gullar.

Gostei do lugar de sua escrita, já me sinto em casa.