4.2.11

Soma de dois

Não poderia haver título mais preciso, e ao mesmo tempo mais ambíguo, para se referir à performance – chamaremos assim – da atriz Monica Siedler e do artista visual Roberto Freitas: Somático. A etimologia de somático nos diz qualquer coisa, em oposição ao psíquico, relativo ao corpo: soma. A partícula soma, por sua vez, multiplica os sentidos, recebendo inclusive, como queira, a própria idéia de multiplicação: adição, conjunto, volume. De início, pode-se dizer que a performance lida com ambas as idéias anunciadas de modo até direto pelo título: corpo, por um lado; multiplicação, por outro – ou seja, soma e soma. Como estas duas idéias, então, ambivalentes e gêmeas, diferentes e iguais, separadas por um itálico, podem se relacionar durante o espetáculo? Quais as relações podem existir entre a presença do corpo e o procedimento da multiplicação?



De fato, Somático abre com a atriz, Monica Siedler - sem interpretar qualquer personagem, com uma roupa até certo ponto neutra - se alongando em um palco vazio: provavelmente uma demonstração do corpo em sua condição de pura presença. Aos poucos, no entanto, através de um dispositivo de multiplicação das imagens, com diversos vídeos projetados por Roberto Freitas, tanto no fundo do palco quanto em pequenos monitores que vão ocupando o chão do espaço, enfatizado por um palco em penumbra, quase sem luz, enfim, este corpo, tão presente no início, vai desaparecendo aos poucos. Nos vídeos, inspirada por Cindy Sherman, Monica Siedler aparece representando uma série de tipos feminimos, estereótipos, personagens em série. A condução dramática de Somático, deste modo – ou talvez apenas um fio de mínimas associações que conduz algumas idéias, sem qualquer drama – trata justamente disso: de um corpo que, ao se multiplicar, some.

O jogo entre presença a ausência parece que enfatiza, aos poucos, uma espécie de derrota da matéria. Em outras palavras, se há muitos corpos que se multiplicam indistintamente, se a soma acaba sendo infinita, através da serialização de diversos personagens que aparecem e reaparecem nos vídeos, como se fossem fantasmas, então não pode haver mais nenhum corpo estável, seguro. Somático, sendo um contato persistente, mas sem resolução, entre duas forças opostas, várias imagens opostas - em resumo: um vídeo-artista que faz delirar a imagem de uma atriz que se cansa, por sua vez (as quedas, com a dança, não dizem outra coisa além do cansaço) - enfim, o procedimento da soma aparece da mesma maneira como disposição e cansaço, realidade e virtualidade, vídeo-arte e teatro; ou seja, uma soma infinita de dois.



Um comentário:

Companhia Flutuante disse...

Olá!
Acabei de assistir ao espetáculo e fiquei muito contente em perceber que Soma dá continuidade ao processo de criação da Mônica e do Roberto, iniciado no outro trabalho "Uma".
Há uma tensão desde o início do trabalho e euf ui ficando cada vez mais espantada como o corpo virtual foi ficando cada vez mais vivo e presente e o corpo de carne e osso de Mônica que estava ali `a frente do palco foi desaparecendo e morrendo.
Espero que esta dupla tenha a oportunidade de continuar a desenvolver e avançar com seu trabalho artístico. Precisamos de mais trabalhos como este que é "Soma", poeticamente inteligente, simples e despretensioso e de bases fortes e flexíveis.

Obrigada pelo trabalho!