14.3.11

Um jogador e meio



Enquanto escrevia Crime e Castigo, como se sabe, Dostoiévski se afundava em dívidas. Boris Schnaiderman, que tem o nome ainda mais difícil de escrever, nos conta - se desculpando sob a alegação de que a história já é conhecida - que Dostoiévski publicou Um jogador para ganhar algum trocado e pagar as contas. O escritor deixou de lado a obsessão por seu grande romance - dizem que era um sujeito muito obsessivo - e ditou Um jogador em exatos e surpreendentes 26 dias. "Seu horário de trabalho consistia no seguinte: passava as manhãs rascunhando os materiais a ditar; a taquígrafa chegava em sua casa ao meio-dia, e ele ficava ditando até as quatro. Ela levava para casa as folhas taquigrafadas e efetuava a transcrição. E no decorrer daqueles 26 dias, Dostoiévski procedeu também à correção do texto final", escreve Schnaiderman. É preciso que se diga que Um jogador não é um grande livro - isso se tratando de Dostoiévski - mas e daí? O mais curioso da história, e isso Boris Schnaiderman prefere não dizer, embora seja um pouco óbvio - será que o crítico não diz justamente por isso? - é que o livro trata, como um negativo da vida, de uma velha rica que perde grande parte de sua fortuna em dois dias de jogo; depois o protagonista ganha, mas isso, talvez, passa a ser o menos importante. Em outras palavras, como em uma gangorra que equilibra a ficção de um lado e a realidade de outro, para que Dostoiévski pague as suas dívidas, é necessário que a sua personagem caía em ruínas.

Um comentário:

Laura Cohen disse...

que cruel é o escritor com seus personagens