23.5.11

As profissões do meu vô

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Por Victor da Rosa para Diário Catarinense

Meu vô era sanfoneiro de gafieira; ou seja, de zona, bordel, estas coisas. Na banda do meu vô, havia também um cego e um anão – o anão, curiosamente, era o baterista, enquanto o cego, tecladista, era o líder da banda, uma espécie de Tirésias da zona. É bem provável que aquele era o único lugar em que meu vô conseguia ser coadjuvante, como queria. No fim do show, de volta pra casa, segundo a mitologia familiar, o danado parava em todos os bares, pra tomar uma dose de cachaça em cada um, com a sanfona nas costas e o filho mais velho – que depois (palavra de honra) se tornou o meu pai – de testemunha.

Sanfoneiro de gafieira, na verdade, não era exatamente a sua profissão. Seja como for, ainda hoje desconfio que meu vô jamais recebeu o pagamento dos shows em dinheiro. Na verdade, meu vô tinha muitas profissões. A rigor, era vigia noturno de um clube. Era a sua única profissão regulamentada, digamos. Mas ele também criou galos – e sobretudo treinou (pra brigas) – durante um bom tempo. Além de músico e vigia, era também empresário, portanto. E médico veterinário, além do mais, já que fazia pequenas operações nos bichinhos.

Lembro de chegar na sua casa, por exemplo, e me deparar com uma galinha toda estropiada sobre a mesa; mas depois ele costurava direitinho e ficava tudo legal com elas. Aliás, teve uma vez que eu e minhas primas resolvemos roubar a máquina fotográfica e esvaziar um filme de 36 poses fazendo retratos de todas as galinhas do vô. Se uma das minhas primas não tivesse o pé tão grande a ponto de aparecer em meia dúzia das fotos, até hoje ninguém teria descoberto nada.

Como bom empresário, o vô também fazia negócios. Dizem que era péssimo para os negócios. E os seus negócios eram estranhos: trocava desde relógios por passarinhos até égua por correntes de ouro. Um dia ele chegou com uma égua em casa e semanas depois teve que conseguir uma carroça pra justificar a nova aquisição. Então aproveitou e virou carroceiro também. O velório do meu vô, por exemplo, foi todo pago com a venda dos passarinhos, que eram todos de primeira categoria. O argumento pra dar valor às suas coisas era sempre o mesmo, que ele julgava definitivo:

– Pode ter igual, mas melhor não tem!

Eu aprendi muitas coisas com o meu vô. Pra me ensinar a nadar, por exemplo, ele me jogou do trapiche de Coqueiros, quando a praia de Coqueiros já nem era lá aquelas coisas, e ficou analisando de longe o meu desempenho. Era um método pedagógico muito valorizado. E meu vô também era um bom conselheiro, o que não lhe rendeu nenhuma profissão, mas muito ensinamento para os netos. Quando eu comecei a namorar, meu vô ficou preocupado. Seus assuntos preferidos eram três: música, mulher e futebol, exatamente nesta ordem. De modo que um dia ele me chamou no canto e disse:

– Pintinho – ele me chamava assim – homem que é homem tem que namorar mulher feia também!

Quando meu vô faleceu – já faz quase dez anos – eu ainda não era escritor, mas tenho certeza de que se ele estivesse vivo, com a falta de paciência que tinha com os netos, não daria a mínima para os meus textos. Meu vô não era homem dado à conversa fiada e muito menos à poesia, coisas que, como todos sabemos, não levam a lugar nenhum. Meu vô era homem sério. Era um homem inteiramente dedicado ao trabalho.

6 comentários:

Alessandra Knoll Pereira disse...

Agora fiquei preocupada. Logo eu que não sou dada a fazer nada que não tenha valor póstumo, na minha racionalidade instrumental... fico irritada com conversa fiada, futebol, vídeo game, notícias sobre acidentes de trânsito, novelas e essas coisas que pra mim são de veras improdutivas. E agora vem seu vô do além-mar me dizer (com o efeito de um tijolo na testa) que a poesia não leva a nada!

Caí na real que na verdade tudo que eu gosto leva a lugar nenhum: filosofia, música, literatura, poesia, cinema, política e principalmente o Direito! Este último mesmo é o mais sem razão ou solução! Fez eu perder 5 anos na faculdade para perceber que quanto mais estudo menos entendo.

Vou repensar meus conceitos!

Me amassa, que eu to passada! (assim com o ME no lugar errado mesmo, que é pra enfatizar o EU)

Victor da Rosa disse...

alessandra, querida, meu vô era analfabeto.

Anônimo disse...

Oi é a 1ª vez que encontrei o teu blog e reflecti muito!Espectacular Projecto!
Adeus

Peter Gossweiler disse...

GENIAL!!!

í disse...

lindo!

Anônimo disse...

Avôs sao lindos materiais literários. Ainda mais, quando nao fazem parte do retrato do avô clássico! Lindo texto.