30.5.11

A contribuição de todos os erros

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Por Victor da Rosa para Diário Catarinense

A recente discussão sobre o livro didático que ensinaria a falar errado, na verdade, não é uma discussão recente. É mais batida do que vitamina de banana. A discussão, por baixo, já tem uns 80 anos, e não duas ou três semanas. Uma das conquistas mais importantes do modernismo brasileiro, na década de 1920, é o direito ao desacerto. Por isso, desta vez, não lemos muito do que foi dito, mas também não queremos deixar de emitir nossa opinião. Afinal, o que seria da língua portuguesa sem o erro?

Sem o erro, pra começar, a cultura brasileira não teria nem o lundu, nosso representante do funk carioca ainda no século 19. Nas rodas de lundu, como dizem os melhores historiadores, a chapa também esquentava. Pra quem ainda se constrange com as letras do funk – um século e meio de atraso, mais ou menos – vejamos dois versinhos de um lundu clássico: “Umbigada de papudo é papudo que dá / Eu também sô papudo eu também quero dá”. Sem o lundu, a música brasileira seria hoje, no melhor dos casos – e sem desprestigiar os nossos irmãos lusitanos – uma versão da modinha portuguesa.

E onde ficaria a graça de Adoniran Barbosa? O que seria das canções de Adoniran com todos os plurais corretos e as concordâncias no lugar? Há uma conhecida estrofe de Adoniran que tira proveito do erro inclusive pra fazer rima: “Num relógio é quatro e vinte / No outro é quatro e meia / É que de um relógio pra outro / As hora vareia!”. Agora vamos pedir para que o Willian Bonner e a Fátima Bernardes corrijam o verso – “as horas variam” – e depois façam um dueto no chuveiro. O professor Pasquale também pode participar do coral.

Guimarães Rosa, autor de livros cheios de erros, tem um trocadilho errado: “Pãos ou pães é questão de opiniães”. E também gostava de escrever dança com S porque a letra S dança mais bonito e tem mais molejo do que a cedilha. Não adianta o Word nos dizer pra corrigir; o S dança mais bonito mesmo assim. Aliás, fica melhor ainda escrever dança com dois SS, pois aí já vira zoeira – vira roda de lundu, baile funk – e as letras dançam juntinhas.

Sem o erro, não teríamos Oswald de Andrade e seu poema “capoeira”, exemplo de literatura cinematográfica, também pela apropriação da oralidade: “– Qué apanhá sordado? / – O quê? / – Qué apanhá? / Pernas e cabeças na calçada”. No manifesto da Poesia Pau Brasil, escrito em 1924, Oswald nos diz que deseja justamente o seguinte: “A língua sem arcaísmos, sem erudição. (...) A contribuição milionária de todos os erros. Como falamos. Como somos.” Graças ao erro, enterramos Olavo Bilac e Coelho Neto, os dois poetas mais chatos da literatura nacional.

Se não tivéssemos a liberdade de falar errado, teríamos também que aposentar as expressões mais bonitas do nosso país. Em lugar de “Óxente, Mãinha!”, com toda aquela preguiça bacana do baiano, o sujeito diria algo assim, sei lá: “Mãe, por favor, deixe-me dormir mais um pouco.” Em lugar de “É nóis na fita, mano!”, ficaria uma coisa meio parecida com isso: “Estamos juntos, meus caros irmãos”. Pra pedir uma cerveja no boteco, correríamos o risco de beber no máximo um copo de água. O carioca, por exemplo, tem todo um jeito intimidador de pedir cerveja que está ligado justamente aos neologismos que só o carioca é capaz de criar. Funciona.

Ainda, todo o nosso sentido de improviso – a gambiarra, a síncope, o batuque, o Mussum, toda a tradição do repente, a literatura de cordel do nordeste, o nosso humor gaiato – não passaria de uma próclise mal colocada, uma mesóclise, uma ênclise, um trava língua. Enfim, não dizer a um aluno de segundo grau que tudo isso existe não é apenas uma questão de opinião. É questão de opiniães.

4 comentários:

mara paulina arruda disse...

Questão de opinões. Um abraço victor da Rosa sempre bacana nas suas crônicas. Mara Paulina.

Anônimo disse...

depois de sofrer censura neste blog eu nem ia mais comentar. mas, ah, gostei!

Diogo Araujo da Silva disse...

olá victor,
parabéns pelo texto!

apareça no meu blog: www.aspipas.blogspot.com

abração,
Diogo

ez disse...

merecia vc ter feito tb uma alusão ao erro do pero vaz que das índias veio parar aqui, já nascemos de um erro! beijos querido, ez