2.5.11

Crônica sem assunto

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Por Victor da Rosa para Diário Catarinense

Todo cronista, cedo ou tarde, acaba escrevendo uma crônica sobre a crônica que ele não escreveu, mas deveria ter escrito. É clássico. Nestas crônicas, o malandro vai enrolando o leitor, faz juras de amor e promessas, promete alhos e bugalhos, mas no fim não diz é nada com nada. Na verdade, enrolar o leitor é a essência da crônica. Em maior ou menor grau, é sempre disso que se trata. Como o cronista não é especialista em coisa alguma, ele nunca terá algo importante pra dizer. Se o poeta é um fingidor, como escreveu Fernando Pessoa em seu célebre poema, então o cronista é – no máximo– um mentiroso.

Em entrevista a algum canal de TV fechada, o cronista dirá que às vezes falta assunto, mas é mentira. Escrever toda semana é osso, mas assunto não falta. Toda semana a tarifa de ônibus aumenta, estreia um filme catarinense ruim, o DEM muda de sigla, o Adriano faz rolo e algum secretário de cultura escreve uma carta aberta à imprensa com erros de ortografia. Assunto, de fato, nunca falta. O que falta é criatividade, empenho e um bom salário. Aliás, assunto sobra. Neste caso, seria mais franco e até mesmo mais convincente se o cronista afirmasse que o problema é o excesso de assuntos, não a falta.

Seja como for, todo cronista dispõe de uma série de assuntos para os quais sempre recorre quando falta assunto. Quando não tinha ideia, depois de passar a semana inteira bebendo uísque nos bares de Copacabana, Stanislaw Ponte Preta abria as páginas policiais dos piores jornais cariocas. Sempre tirava uma história legal dali. Por sua vez, Vinícius de Moraes, quando não tinha ideia, mudava de mulher. Ao todo, foram nove crises criativas durante a vida. Nelson Rodrigues, o escritor mais alcoviteiro da literatura nacional, fazia uma visita na casa dos vizinhos. Os cariocas são os melhores cronistas justamente por esta capacidade de passar dias falando sobre qualquer coisa.

Os especialistas afirmam que uma das funções da crônica é apreender as mudanças sociais de uma cidade e discutir os assuntos diários. Na nossa opinião, no entanto, o papel do cronista é fazer com que o leitor não abandone a leitura de seu texto na metade. Há algumas maneiras de conseguir isso. Ser engraçadinho é uma delas. O cronista deve se comportar, para lembrar de Oswald de Andrade, como uma espécie de palhaço da burguesia. Por outro lado, é importante dizer também umas barbaridades. Uma estratégia eficaz é levar o leitor a sentir um pouco de raiva. Tem dado muito certo. Ao invés de conquistar a atenção do leitor pela inteligência, investe no lado emocional. Por exemplo, o cronista pode defender a ideia de que o Centro Integrado de Cultura deveria se tornar um campo de futebol. É necessário defender a tese até o fim.

O cronista mais bem sucedido, de qualquer modo, ainda é o cordial. Se o cara consegue fazer uma crônica sem assunto e com o espírito de cordialidade, jamais perderá o emprego. Um dos assuntos preferidos do cronista cordial é a preservação da natureza; outro é o incentivo à leitura. Nego fica o ano inteiro esperando começar alguma Feira do Livro pra elogiar a iniciativa, mesmo que na Feira só tenha livros de péssima qualidade. Ler é importante. No final das contas, o leitor sai reconfortado e o cronista segue feliz. Quem nos leu até aqui sabe muito bem de tudo isso.

8 comentários:

rafael campos rocha disse...

incrível victor! muito bom! genial!

mara paulina arruda disse...

Continue feliz Victor da Rosa. Você é bom.Eu gosto das suas crônicas bem-humoradas. Um abraço.

sandra tasca disse...

isso é pq era uma cronica sem assunto,ne vitor?Missao cumprida,booom cronista!bjo

Anônimo disse...

véio, se tua próxima crônica não for sobre a pichação zoando o filme do zeca pires não sou mais teu amigo.

andré disse...

Olºa, Victor! Gostei muito do texto, mesmo.

Anônimo disse...

voltei a gostar muito. parabéns, nessa você acertou a mão!

Anônimo disse...

hello espectacular post , gostei muito, acho que poderiamos tornar-nos amigos de blog :) lol!
Aparte de brincadeiras o meu nome é Raimundo, e assim como tu publico paginas se bem que o foco do meu espaço é bastante diferente do teu....
Eu escrevo sites de poker sobre bónus sem depósito sem teres de por do teu bolso......
Gostei muito aquilo li aqui outra vez
Voltarei!:)
Ps:desculpa o meu portugues

zeca disse...

Faltou dizer que cronista tem que posar pra foto de cachecol e óculos de tartaruga, se não não impõe respeito.
ps: Essa de você largar o blog devido a seus 16 empregos é sinal que as coisas vão mal. Qualquer um, formado em letras, com 16 empregos, quer dizer que tá fazendo merda.