16.5.11

Pau que nasce torto

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Por Victor da Rosa para Diário Catarinense

Zuleika Zimbábue, segundo as más línguas, é mulher. Criada pelo ator Paulo Vasilescu há uns dez anos, Zuleika faz de tudo um pouco, digamos: canta, dança, pinta, borda, rebola – mas não rebola muito, pois há algo de durona nela – e também, nas horas vagas, fala mal dos outros. Sua aparição geralmente é semanal – bate ponto todas as terças-feiras, sempre no Blues Velvet, bar no centro da Capital – mas agora Zuleika resolveu pagar de fina e foi fazer um concerto no teatro da UBRO. Muito fina mesmo.

Com um blaser preto e tênis adidas, sóbria e penteada, Zuleika cantou coisas tristes, canções de família e aproveitou para falar mal de stand-up comedy. Depois, a diva bebeu cerveja e fumou no palco. “Eu não gosto de gente, eu sou um bicho, um animal selvagem, eu sou a filha legítima do capeta”, disse a traveca, com as luzes todas apagadas, procurando instaurar o medo em um público que lotou o teatro. Salvo engano, Zuleika não falou nenhum palavrão.

Fazia tempo que Zuleika não cantava no palco, preferindo os inferninhos sazonais da cidade. Mas ela sabe cantar como ninguém e você pode ouvi-la mesmo que não esteja bêbado. Desta vez, aliás, Zuleika não estava acompanhada por guitarra, baixo e bateria, e sim pelo piano de Diogo de Haro. O repertório também mudou. Foi de Chico Buarque de Holanda a Maria Bethânia. De Bang Bang a Depeche Mode. Só faltou, aliás, cantar bossa nova e Besame Mucho. Mas Zuleika não é biscate. Tem voz de macho. É a verdadeira filha bastarda do Frank Sinatra.

Nascida em Zimbábue, pra quem não sabe, a diva chegou em Santa Catarina com a proposta de atuar na Escola do Teatro de Ballet Bolshoi, mas não se adaptou como bailarina. Depois de fazer um rolo com a Márcia Mel, Zuleika veio passar uma temporada em Florianópolis, onde teve um caso com o Gil – quem não sabe quem é o Gil não sabe o que está perdendo – e passou a ser a primeira dama do Blues Velvet. Antes disso, a nossa diva foi backing vocal da Amy Winehouse, quando aprendeu a falar inglês britânico e a dar bafão, e também secretária da Yoko Ono. Ao que consta, Zuleika não dorme cedo.

O ano de seu nascimento, sua genética e seu objetivo de vida são desconhecidos. Zuleika Zimbábue não se resume a um verbete. No entanto, sabemos que janta todo sábado no McDonalds e anda de bicicleta depois pra emagrecer. Sabemos que é apresentadora de auditório e gerente de cabaret. Sabemos também que não gosta de literatura brasileira nem de revistas femininas. Ou seja, é uma artista cheia de complexos. Nunca escreveu um poema. Ela é boa mesmo no oral. Em metalinguagem, metateatro, metatudo.

Uma das graças de Zuleika, como queira, é que nem todo mundo gosta dela. Duas tias deste cronista ficaram horrorizadas quando Zuleika, com uma de suas performances, em noite inspirada, deu pra falar mal da Glória Perez e da Hebe Camargo. A macaca falante, como se autointitula em seus monólogos, não está aí pra fazer ninguém feliz. Quem quer ser feliz que dê um jeito. Zuleika é fina, bonita e desagradável.

Aliás, procuramos a artista para falar sobre seu último concerto, que tem um título muito grande pra publicar aqui, mas ela não quis nos atender. Primeiro ela disse que estava de ressaca. Depois, nos atendeu um tal de Tonhão. Então enviamos um e-mail desaforado e ela respondeu com poucas palavras: “Meukú”. Foi quando resolvemos passar trote pra sua casa, dizendo que era um jornalista do Le Monde, mas Zuleika reconheceu nosso sotaque. Enfim, Zuleika Zimbábue é mal educada. Não teve jeito. É mesmo uma artista de verdade.

4 comentários:

mara paulina arruda disse...

Você também Victor da Rosa é um artista. Já escrevi que gosto do seu jeito fofoqueiro de ser cronista. Um abraço de sua leitora Mara.

Anônimo disse...

mais um texto sobre traveco. queres parecer cool, victor. preguiça...

Márcia Nunes disse...

Lindo o texto!

sobre traveco? heim ...?

patriciaprado disse...

\o/ Achei demais. Zuleika deve estar orgulhosa.