9.5.11

Roteiro sem nome

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Por Victor da Rosa para Diário Catarinense

Na última semana, uma pixação inusitada apareceu na parede do Museu Victor Meirelles, em Florianópolis: “Zeca Pires, o seu roteiro tem problemas sérios”. A frase já dividia opiniões na internet quando saiu uma matéria no Clicrbs, dois dias depois, denunciando a pixação. A matéria traz uma foto da pixação e um tom entre a denúncia e o mistério. O próprio cineasta, que gosta de dar entrevistas, convocado a dar sua opinião sobre a frase, afirma que “pichar o patrimônio público é inconcebível, ainda mais o museu, que eu sei das dificuldades que têm (sic) para sobreviver”.

A pixação provoca estranhamento, segundo o comentário geral, porque não tem erros de ortografia. Chama a nossa atenção principalmente o cuidado com a vírgula, que conjuga o vocativo de maneira correta – diríamos perfeita. Um amigo nosso, que é professor universitário, nos diz que seus alunos frequentemente escorregam nestas construções. Por sua vez, se a caligrafia não é tão bonita, também não se pode dizer que é feia. Além de bem justificada, centralizada, a escrita é legível, digna. Nota-se que o pixador usava cadernos de caligrafia na escola.

De outra maneira, não há qualquer insulto ao cineasta, nem nomes feios, de acordo com o imaginário estabelecido da pixação. Pelo contrário, a pixação tem um tom pedante de estudante de cinema, um ar de cachecol e óculos de tartaruga, algo entediado, coisa de gente que acabou de descobrir o cinema do Godard. A palavra “roteiro” e principalmente a construção “problemas sérios”, a seu modo, lembra debate de cineclube. Parece não haver também, por parte do pixador, um interesse específico em depredar o patrimônio público, pois com a tinta branca mais simples – e os museus geralmente dispõem destes materiais – é possível apagar a frase, que além de tudo é pequena e discreta.

Não deixa de ser curioso que a matéria tenha sido publicada na página de entretenimento, e não nas páginas policiais. Geralmente os pixadores – pelo menos os tradicionais – estão preocupados com assuntos mais importantes. Se o autor da frase não é exatamente um pixador, no entanto, quem seria? Ou será que, após a Bienal de São Paulo, que privilegiou o pixo, estaríamos diante de uma geração de pixadores interessados em crítica de arte? O que uma antropóloga, afinal, diria sobre tudo isso? Vandalismo? Singularidade do sujeito urbano?

Não custa lembrar que, há poucos meses, o próprio Museu Victor Meirelles promoveu um curso de grafitti com Zezão, um dos principais grafiteiros de São Paulo, que recentemente foi enquadrado no artigo 65 da lei 9.605, por não possuir autorização para fazer o seu trabalho. O nome do curso que Zezão ministrou em Florianópolis era “Museu para a harmonia social, a partilha do sensível”. Nesta ocasião, Zezão e seus alunos grafitaram os tapumes que estavam dando sopa – limpinhos – ao redor da antiga câmara dos vereadores, na Praça XV, provocando uma treta com o fiscal do Ipuf.

Há quem diga que a própria equipe de produção do filme contratou um pixador profissional pra fazer a frase – com verbas da Lei de Incentivo à Cultura – já que a pixação provocou uma das maiores publicidades espontâneas para um filme cheio de publicidade. A tese, no entanto, é controversa. Qual artista gostaria de ver uma verdade tão grande sobre a sua obra estampada justamente nas paredes de um museu? Será que o pixador viu o filme no Shopping Iguatemi? Mistério. Afinal, este também é um roteiro de mistérios. Só não tem bruxinhas e vampiros.

13 comentários:

Anônimo disse...

victor e joão, a pixação de vocês tem sérios problemas.

não é uma pixação.

Anônimo disse...

1-pixar ou pichar? eis a questão. com "x" ou "ch" o autor passou sua mensagem
2- se o meliante (?) está certo ou errado cabe a quem limpou dizer.
É o mito saindo da caverna e tomando os muros.
ps: que o cinema de Godard continue sendo descoberto, afinal segundo o mesmo "Tudo o que você precisa para fazer um filme é uma mulher e uma arma."

Victor da Rosa disse...

No texto original está com X, mas a edição do jornal apresenta com CH. Fiz questão de publicar no blog com X, pois assim pelo menos marco a minha diferença.

rafael campos rocha disse...

muito bom o texto! que coisa esse nome do curso de grafite: "a partilha do sensível" parece aquelas frescuras de curadores...pixador fazendo crítica de arte, grafiteiro fazendo prosa teórico-poética...daqui a pouco vão rebaixar os quadrinhos ao nível da literatura ou, pior ainda, das artes plást...hei! espere aí! já fizeram isso!

mara paulina arruda disse...

Victor da Rosa esse texto tem um quê de tentativa de fofoca :)Não sei não.. Legal. Eu gosto do jeito que você escreve- um jeito de malicia...Um abraço.

Victor da Rosa disse...

é isso mesmo: uma fofoca sem fonte.

Anônimo disse...

acho que esse texto tem um "cu" de curadoria...

Victor da Rosa disse...

bom comentário. nota 7.

Alessandra Knoll disse...

Também achei aquilo bem estranho. Cheguei até a bater foto meio que como se fosse algum fato histórico.
A frase escrita corretamente, bem estruturada, e a questão do autor achar que o roteiros não tem apenas problemas, mas SÉRIOS problemas. Parece que ele levou tudo muito a sério.
O mais estranho é que não falava de política, era outra forma de protesto. E não era também aquelas declarações de "ainda te amo" coisas do tipo...
Cheguei até a pensar que poderia ser o próprio roteirista escrevendo aquilo para passar ali e se inspirar numa solução para estes sérios problemas hahahaha daí dá pra divagar...

Anônimo disse...

com nota 7 vou demorar para atingir minha meta e estar entre os leitores top 3 do teu blog. no próximo comentário vou procurar me esforçar mais.

Anônimo disse...

Bem parecido com o que disse o Daniel Galera para o André Conti no blog do IMS:

Teu protagonista não convence: refaça

-:-

http://blogdoims.uol.com.br/daniel-galera/teu-protagonista-nao-convence-refaca/

Victor da Rosa disse...

jura que leu até o fim?

Anônimo disse...

ai esses ilhéus, andam tão intelectualizados.