27.6.11

O FAM e a nossa história

.
Por Victor da Rosa para Diário Catarinense

Eu já acompanho o FAM desde o tempo em que os filmes eram projetados no Cecomtur, no auditório da Justiça Federal, bem na frente de umas três igrejas universais que agora têm ali. Uma das coisas legais desta época é que o Celso, organizador do evento, proferia seu discurso de abertura com uma garrafa de cachaça na mão e o microfone na outra. Logo depois o FAM passou a ser realizado no CIC e agora, de uns três anos pra cá, no campus da UFSC, ocasião em que a velha garrafa de cachaça foi substituída pelo reitor e um secretário de cultura. No campus não pode beber, afinal. E secretário de cultura dá em árvore. Bons tempos aqueles.

De uma edição no CIC eu também guardo uma imagem inesquecível: aconteceu na estreia do filme Doce de Coco. Levei minha tia pra assistir ao filme – sempre tento convencê-la de que cultura é uma coisa importante – e ela já estava roncando no sexto minuto de projeção. Eu jamais havia presenciado um sono ao mesmo tempo tão veloz e profundo. Minha tia, a Rosette Rosa, que é muito educada e sensível aos artistas, jamais sai na metade de um filme, mas ela dorme. Neste caso, não deu tempo nem de conhecer o protagonista. Dormir é involuntário.

Aliás, um Festival como o FAM, por ter uma programação tão intensa com filmes dos quais você nunca ouviu falar, privilegia dois modos pouco indicados de ver cinema: dormir e sair na metade. Deve ser por isso que agora tem café expresso de graça. Lembro de um curta em que, com as técnicas mais requintadas, uma mulher passava uns 20 minutos torturando o ex-marido. O filme era de uma diretora feminista curitibana que estava sentada na poltrona bem na minha frente. Como eu tenho fobia de sangue, fui obrigado a levantar. Lá fora, enquanto tomava um copo de água pra ficar mais calmo, eu pude acompanhar o esvaziamento completo da sala como nunca havia visto antes. Parecia fim de jogo na Ressacada.

E tem aquelas coisas que acontecem em todas as edições, há 15 anos, sempre do mesmo jeito. As festas de encerramento, por exemplo, são um fracasso todo ano. Eu não sei quem faz a decoração, mas aquele salão de festas fica parecendo mais um ambiente pra bingo. Uma coisa legal, por outro lado, é ver os amigos pagando mico no teaser que passa antes de cada seção. É clássico. Sempre tem um corajoso que vai fazer o trocadilho de FAM com fã, mesmo que já tenha passado o prazo de validade. Isso quando o sujeito não abre os dois braços bem abertos e diz, olhando alegre para a câmera: “Gente, o FAM é nosso!” Piadas dos cineastas ao apresentar os próprios filmes também são sempre bem-vindas.

Mas o melhor do FAM mesmo é a quantidade de gente bonita, bem vestida e com cabelo transado. Os dias vão passando e a galera vai ficando mais tensa porque, bem, as opções no guarda-roupa são cada vez menores. Chega no último dia e você está combinando a calça de terça-feira com a camisa de domingo. A variação de cortes de cabelo, sobretudo, é algo que impressiona. Aliás, eu gosto de cinema por isso. Se você vai no lançamento do livro de um poeta, por exemplo, só tem gente triste, desanimada e mal vestida. Com o cinema não é assim. Qualquer lado que você olhe tem alguém descolado. Pra quem está procurando namorados, namoradas, estas coisas – vai por mim – a sugestão é acompanhar só a mostra de curtas porque há pelo menos cinco black-outs por sessão. Enfim, como diria um cineasta catarinense, o FAM já faz parte da nossa história.

5 comentários:

Anônimo disse...

eu também iria atualizar meu comentário do ano passado, mas não sei onde ele foi parar...

gilvas disse...

rosa, muito bem colocado o ponto do fam servir para formar novos casais de hypsters, hehe. saudades do cic!

em tempo: tenho fobia de sangue e hospital, e já desmaiei em duas sessões no cic.

Victor da Rosa disse...

isso, e hipstars também!

mara paulina arruda disse...

Um dia quero conhecer essas tuas tias tão famosas! Um abraço Victor da Rosa.

Pádua Fernandes disse...

Gostei disto: "lançamento do livro de um poeta, por exemplo, só tem gente triste, desanimada e mal vestida"!
Mas, no Rio, não é assim geralmente - os lançamentos são festas, ou se dão em clima de festa. O pessoal só fica desanimado se a bebida estiver ruim.
Abraços, Pádua.