20.6.11

Retrato de um animal

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Por Victor da Rosa para Diário Catarinense



Edmundo não é exatamente um herói. Pelo contrário, como os grandes escritores, o jogador ensinou ao futebol que não devemos cultuar heróis, pois a vida é atravessada por contradições, fracassos e fraquezas. O jogador era capaz de jogar pelo Flamengo em um ano e se tornar ídolo pelo Vasco no outro – isso quando defender um clube ainda significava alguma coisa. Do herói, entretanto, figura intermediária entre os homens e os deuses, se espera apenas os atributos mais altos e nobres; de um animal, apenas temos a sua nudez.

De fato, o estigma de animal, paradoxal por definição, não poderia ser mais verdadeiro: dentro e fora de campo, Edmundo se comporta entre o humano e o inumano; o homem e o bicho. Como animal, não mede as consequências de seus atos; como humano, é capaz de voltar atrás, se fragilizar, negar suas próprias convicções, eventualmente se arrepender. Edmundo talvez seja o jogador de futebol que – tanto quanto os cartões vermelhos que recebeu – mais chorou em rede nacional. E isso não é qualidade e nem demérito: é apenas a dificuldade de calar um protesto contra a ordem.

Edmundo não jogou futebol segundo o estereótipo dos jogadores brasileiros: leveza, cordialidade, alegria. Seu estilo de jogo é mais grosseiro, até mesmo pesado, embora liso, imprevisível. Alguns gols de Edmundo estão cheios disso: dribles truncados, empurrões, trancos e barrancos. Por sua vez, seu sentido de humor é mais cáustico e inoportuno: desperta ao mesmo tempo atração e repulsa. Suas declarações não são tão polêmicas quanto seu comportamento dentro de campo. Pode-se dizer qualquer coisa a um animal; ele não responde.

Dentro de campo, Edmundo chamava os zagueiros pra dançar, literalmente. Em um jogo entre Vasco e Botafogo, em um Maracanã lotado, com a bola no pé, dançou a dança da garrafa diante de um zagueiro de 1m90cm. No Palmeiras, foi protagonista de grandes brigas. No Flamengo, desfilou abraçado com um macaco. Em um jogo contra um clube da Argentina, recebeu um soco que empapou seu rosto de sangue. Passou a vida brigando com Romário, um de seus maiores parceiros. Poucos jogadores corriam tanto em campo. Quando perdia, diferente do que assistimos hoje nos gramados, Edmundo se irritava, reclamava dos próprios companheiros.

Edmundo jamais procurou o consenso, como a maioria dos jogadores de futebol. Ninguém demonstrou com tanta clareza – talvez apenas Maradona – que futebol e guerra andam juntos. De algum modo, o jogador nos testemunhou, com sua maneira de jogar, que a característica mais própria do futebol não é a técnica, a beleza, o escrúpulo, e sim o impulso, o instinto e a intuição. Como todo animal, parece ter um olhar que nega os próprios atos. É ao mesmo tempo sensível e passível, bom e malvado, abissal e secreto, inocente e cruel.

Seja como for, Edmundo é um dos jogadores mais excessivos da história do futebol brasileiro, mais pleno de contradições, jamais quis se preservar de nada e levou a fragilidade humana a seu limite. De outra maneira, é irreverente e triste. Quando fazia um gol, comemorava com a torcida, este outro bicho incontrolável, e não com a opinião pública. Ao mundo do futebol – um mundo que cultua figuras dóceis e coerentes (pelo menos durante as entrevistas coletivas) – coube a difícil tarefa de domesticá-lo, disciplinar suas promessas. Alguém que foi tão longe, que diz coisas tão difíceis sobre nós mesmos, afinal – seremos todos animais também? –, deve acabar punido.

Um comentário:

mara paulina arruda disse...

Hoje, no Retrato de um animal vi um Victor da Rosa mais sério mas, não menos prazeroso de ler. Um abraço.