25.7.11

Caro César Aira:

Por Victor da Rosa para Diário Catarinense






Meu nome é Victor, escrevo crítica literária, digamos, tenho 26 anos, sou estudante de literatura em uma Universidade do sul do Brasil - faço doutorado sobre Machado de Assis, escritor brasileiro que você mais gosta, acho - e também sou leitor de sua obra. Nunca escrevi nada sobre os teus livros, talvez porque goste tanto deles, mas se não li todos é apenas porque são muitos. Durante algum tempo, quando eu pensava em ser escritor, tentei imitar seu modo de escrever, mas nunca consegui. Uma amiga me disse que achava nossa escrita parecida, mas depois descobri que ela estava mentindo. E um dramaturgo argentino um dia me disse também que sou parecido com você - fisicamente, no caso, provavelmente por causa dos óculos - e já me dei por contente com isso.

Na verdade, eu não tenho muitos livros teus em casa, devo ter apenas uns cinco ou seis, mas já peguei muitos emprestados com amigos. Um deles eu não devolvi, mas os outros todos me cobraram depois. Como os teus livros geralmente são curtos, e como muita gente não empresta livros, principalmente quando são importados, já li também algumas de suas histórias em pé, ou seja, diante da estante dos outros. Isso aconteceu com o livrinho “Haiku”, por exemplo, que aliás uma ex-namorada que adora cultura oriental comprou pensando que fosse um livro de haikais mesmo. De onde você tirou este título!

De todos os livros que eu li, meu preferido é “Las noches de Flores”, mas realmente gosto de tudo. Este eu emprestei a uma amiga que também nunca mais devolveu. Faço isso com os teus livros, sugiro a leitura para algumas pessoas, pois acho que as pessoas vão me achar legal depois. Elas vão pensar: “este cara lê coisas divertidas, vale a pena ser amigo dele.” Um amigo que voltou de Buenos Aires na semana passada comprou o teu último livro por sugestão minha - acho que é o último, pois nunca dá pra saber qual é o último, já que você escreve tanto - e ainda estou esperando ele acabar. Neste caso eu sugeri por interesse próprio, mas nem sempre é assim. Enfim; estou dizendo tudo isso para que você possa me achar legal e responder o meu e-mail.

O que passa é que estou indo a Buenos Aires na semana que vem, onde passarei duas semanas, e gostaria de entrevistá-lo. Isso se não for incômodo, pois sei que você não gosta muito de entrevistas; acho que eu li isso, inclusive, em alguma entrevista que você concedeu. Além dos teus livros, afinal, eu conheço também várias das tuas entrevistas. Portanto, prometo não repetir as perguntas que sempre lhe fazem. Não perguntarei o que você acha do realismo fantástico, dos escritores brasileiros, dos críticos que só te elogiam e da literatura de Ricardo Piglia. Aliás, você já conseguiu alguma resposta do Dalton Trevisan? Isso sim é uma coisa que eu gostaria de saber.

Bem, eu já li tantas entrevistas tuas que descobri que você, se não bastasse mentir para os leitores, mente também para os jornalistas. Em uma delas, você diz que trabalha muito, escreve todos os dias, cerca de cinco páginas por dia, e que pouco corrige e revisa os teus livros; em outra, acho que muitos anos depois, você diz que não é um escritor obsessivo, pelo contrário, é muito lento, escreve meia página por dia e que pode passar semanas e até meses - meses! - sem escrever. Você mente de propósito? Esta é outra curiosidade que tenho. Seja como for, eu não ficarei ofendido se você passar a entrevista mentindo pra mim. Enfim, saludos!

PS. Se você não quiser ser entrevistado mesmo, aceito ser convidado para um café.

Um comentário:

Jane Austera disse...

eu aceitaria - o café, não a entrevista.