18.7.11

Diário de uma crônica ruim

.
Por Victor da Rosa, para Diário Catarinense

SEGUNDA – Logo cedo, quando acordo, leio a mensagem de um leitor anônimo dizendo que parou de ler minha última crônica na metade. Não sei bem o motivo, mas acredito nele; e fico chateado. Respondo dizendo que ele deveria ter continuado a ler, pois no final a crônica melhora, mas nem a autoironia é suficiente pra acabar com a minha preocupação. Telefono a um amigo, perto das 9h da manhã, pra perguntar se ele também abandonou a crônica na metade, e meu amigo diz que ainda nem leu. Como é possível? Não saio de casa; não vou para a aula de francês.

TERÇA – Quase ninguém curtiu minha crônica no Facebook, sinal de que o leitor anônimo estava mesmo falando a verdade. Rosette Rosa, a minha tia sobre quem eu escrevi a crônica fracassada, me liga pra dizer que suas colegas de trabalho leram e adoraram. Elas disseram também, segundo a Rosette, que estou com um belo sorriso na foto do jornal. Sinto-me um pouco mais confiante. De resto, nada muito importante no dia.

QUARTA – Saio para beber com um professor e alguns colegas da UFSC, em celebração ao encerramento de um curso. Na mesa do bar, percebo que todos querem sentar ao lado do professor, e então eu trato de ser o mais rápido. O encontro começa um pouco chato, há muitos homens e poucas mulheres na mesa, e além disso todos estão um pouco tensos com a presença do professor, mas depois a coisa melhora. O professor bebe umas cervejas e passa a contar algumas fofocas interessantes. É sempre assim. As fofocas de professores geralmente são melhores porque envolvem pessoas importantes e muitas vezes figuras internacionais. Tiro um caderninho da bolsa e passo a anotar várias ideias para a próxima crônica, momento em que derrubo o copo de cerveja da pessoa que estava a meu lado, exatamente o meu professor.

QUINTA – Acordo às 10h, bem disposto, sem ressaca, embora um pouco culpado, e escrevo uma excelente crônica inspirada em uma das fofocas que o professor contou. Penso que desta vez o leitor anônimo não terá motivos para falar mal de mim e terá que engolir seu ressentimento a seco, pois a crônica, de fato, está excelente. Antes de enviar para o jornal, envio o texto a um amigo, esperando seus elogios, e ele diz que talvez eu possa ter problemas com o professor. Pergunto: mas a crônica está boa? Ele responde: sim, está legal, mas pode dar problemas. Argumento que o professor irá se divertir, talvez nem leia, mas depois penso melhor e envio um e-mail pedindo sua autorização; o professor não responde.

SEXTA – Tenho que entregar a crônica até meio-dia e meu professor responde o e-mail às 11h30min, mais ou menos. Ele diz que prefere que eu não toque em determinados assuntos; ele diz que, se fosse eu, deixaria o assunto quieto. Se fosse eu, ele diz, mas não é. No fim, faz um comentário ambíguo sobre a minha crônica anterior, que julguei desnecessário, e ainda aconselha que eu leia alguns cronistas internacionais. Fico arrependido por ter pedido sua permissão, pois agora, se eu publico a fofoca que ele me contou, bem, na verdade ele contou pra várias pessoas, a coisa é quase pública, mas vai parecer que estou desacatando sua autoridade. Tomo um banho pra pensar no assunto e resolvo deixar a crônica de lado. Talvez aproveite a ideia para um futuro conto. Escrevo outra às pressas.

8 comentários:

Jane Austera disse...

uma metacrônica pode ser uma boa escolha - ou uma boa escapatória.

(lembrou-me Quintana e Da preguiça como método de trabalho)

bibi move disse...

perdi a meia crônica, que poderia ter meio que valido a pena, ainda que lida pela metade.e essa coisa de falar o que já foi dito e de perder o fio da meada da autoria é mesmo complicada. será que ele ficou receoso por conta da história ou porque teve que lhe dar uma perna molhada de cerveja em troca dela?

Anônimo disse...

MELHOROU UM POUCO, AMIGO

Victor da Rosa disse...

ufa....

Diogo Araujo da Silva disse...

olá victor

postei no meu blog um texto sobre o Kafka, segunda resenha dos artistas que escolhi para um curso sobre arte do século XX.

http://aspipas.blogspot.com/2011/07/kafka-e-o-riso.html

se puderes aparecer, serás bem-vindo. qualquer crítica ou cometário, bem como divulgação, idem.

abraço,
Diogo

Anônimo disse...

pra mim foi gol sem impedimento, pena que não foi o avaí que fez! gostei da crônica e da sensatez.

Anônimo disse...

Meu orçamento está apertado. Podes me dar uma sugestão?

"Os detetives selvagens" ou "2666"?

Victor da Rosa disse...

os detetives selvagens è um livro acabado e è o livro que consagrou bolaño. 2666 eu li primeiro e de certo modo è o livro que me fez gostar de bolaño. a segunda parte de 2666 - ou terceira, agora nao lembro - è um pouco chata, talvez porque seja inacabada, mas todas as outras sao incriveis. eu acho que, no fim das contas, gosto mais de 2666, mas os dois valem a pena. comece pelos detetives, que tal?