4.7.11

Meu Testamento Público

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Por Victor da Rosa para Diário Catarinense

Eu, Victor Luiz da Rosa, brasileiro nato, poeta aposentado, cronista de segunda categoria, nem bonito e nem feio, domiciliado em uma rua sem saída, como aliás é muito próprio desta cidade, nascido em 26 de outubro e já vai tantas, solteiro, estando em perfeito juízo e em pleno gozo de minhas faculdades intelectuais e também mentais, pra dizer o mínimo, eventualmente, por enquanto e graças a Deus, com a presença de testemunhas das quais não revelarei o nome, por serem pouco idôneas e inventadas pela minha imaginação doente, resolvo lavrar o presente testamento público para dispor de meus tantos bens, em função de ameaças recebidas, após a minha morte, da seguinte maneira:

PRIMEIRO: Não podendo dispor de todo o meu patrimônio por ter muitos herdeiros, alguns necessários e outros desnecessários, deixo para a Rosette Rosa, por ter sido a tia que me deu os melhores presentes de Natal, mulher íntegra, brasileira, independente e apaixonada por futebol, viúva duas vezes, gerente de uma casa de forró na Lagoa da Conceição, enfim, deixo para ela, não sem certo constrangimento, uma camisa do Avaí autografada pelo ex-atacante Jacaré, artilheiro do Campeonato Catarinense de 1997, ano em que o Leão da Ilha vivia momentos de glória e foi coroado com o título estadual.

SEGUNDO: Não podendo dispor de todo o meu patrimônio por ter muitos herdeiros, como já foi dito, deixo para os filhos que não tive, salvo engano, a minha kitnet sem telefone e sem internet, como efetivamente o faço, com a condição de que paguem o aluguel em dia, não briguem, troquem a água do gato diariamente e apaguem as luzes antes de sair.

TERCEIRO: Para os meus amigos escritores, intelectuais e heterossexuais, deixo o livro de Pola Oloixarac – musa da literatura argentina e da Flip deste ano – autografado com um beijo de batom roxo, para que entrem em um acordo, afinal, pois só tenho um exemplar.

QUARTO: Deixo para os desafetos todo e qualquer direito autoral sobre as minhas obras completas, que inclui as seguintes peças: sete poemas inacabados, dezessete crônicas no Diário Catarinense – contando com esta – mais de 200 posts no blog, o argumento de um romance que ainda não comecei, seis aforismos, um hai-cai sem rima, três traduções de uma língua que não domino e uma pixação na parede do museu, que a princípio é anônima, mas posso provar que é minha. (Ver anexos)

QUINTO: Deixo para Omar Piando, amigo autodidata, artista plástico reconhecido pela Associação de Artistas Plásticos do Campeche, vegetariano, fundador do grupo de performances ambientais La Puente, ex-vendedor de enciclopédias e de outras coisas que é melhor nem dizer, enfim, para Omar eu deixo a minha coleção de obras de arte, a minha sorte, os meus álbuns de figurinhas do Campeonato Brasileiro dos anos de 1993 e 1994 e um jogo de talheres que roubei de uma festa na Villa de Caras, em Gramado.

Declaro que nada mais tenho a lavrar ou a mentir, declaro assim minha última vontade, pois bens eu não tenho mais para declarar, e peço à Justiça de meu país que o faça cumprir como este se contém, em conformidade com a lei, e finalmente dou por encerrado o presente testamento na presença das duas testemunhas acima qualificadas, ou seja, desconhecidas, para as quais li a íntegra do que aqui se contém, confirmado em juízo e livre arbítrio na Travessa Ratcliff, às 23h30m do dia 30 de junho de 2011.

7 comentários:

mara paulina arruda disse...

Victor, Victor, Victor... esse testamento tá pra lá de... engraçado. Eu bem vi que aquela frase no Facebook ia dar em crônica!Um abraço.

Anônimo disse...

adorei "nem bonito, nem feio"! Rapaiz, pras bandas de cá de Minas, cê é da categoria dos "gatinhos".

Laura Cohen disse...

Deixa alguma coisa pros que comentam no blog!

Victor da Rosa disse...

para os comentadores do blog eu posso deixar a senha do meu e-mail!

Paulo Rosa disse...

E aquele par de meias furado? fica pra quem? rsrsr

Pádua Fernandes disse...

Caro Victor, e a dissertação de metrado? Por que não está nas obras completas? Expurgo?
Abraços, Pádua

O Urso Bipolar disse...
Este comentário foi removido pelo autor.