1.8.11

Buenos Aires não existe

Por Victor da Rosa para Diário Catarinense

Tem mais brasileiro passando férias em Buenos Aires do que motel na SC-401. Até gente com a camisa do Avaí eu já encontrei nas ruas. Se eu cruzasse com o Galvão Bueno na esquina da Florida com a Corrientes, explicando para algum gringo porque o Pelé é melhor que o Maradona, eu nem ficaria surpreso. Dos anos anteriores pra cá, de fato, cresceu tanto o número de turistas brasileiros em Buenos Aires que os portenhos já estão especulando em importar o Dunga como novo treinador da seleção argentina e o Palocci como Ministro da Fazenda. Enfim, a coisa no país de Jorge Luis Borges está mais ou menos assim.

Aliás, até nas livrarias, por incrível que pareça, é possível encontrar turistas brasileiros. Antes, para quem quisesse, era possível fugir dos brasileiros indo justamente passar umas horas olhando as prateleiras das livrarias, mas agora nem isso. Na semana passada, flagrei uma carioca na Ateneu, a livraria mais turística de Buenos Aires, comprando um livro do Paulo Coelho traduzido para o espanhol: A Orillas del Rio Piedra me Sente y Lorré. Depois, tinha outra com um livro da Isabel Allende debaixo dos braços dizendo para seu amigo que devíamos conhecer melhor a literatura local. Os argentinos não dizem com todas as letras, mas desconfio que já estão com las pelotas llenas.

O campo de interesse dos turistas brasileiros, pelo que é possível perceber, gira em torno de futebol, tango e principalmente conversão de moeda. Caso você queira encontrar uma dezena de brasileiros em Buenos Aires, dê um pulo no Sr. Tango, por exemplo. Pra bater papo com os taxistas, por sua vez, o melhor é falar de futebol. Teve um dia que, pra puxar algum assunto, eu perguntei por que o Messi não joga na seleção argentina tão bem como na equipe do Barcelona, e o taxista me respondeu que eu já era o quarto brasileiro do dia que perguntava a mesma coisa. Depois voltamos reclamando que os portenhos não têm boa vontade e educação.

Seja como for, nosso assunto preferido ainda é a grana. Até pra comprar um alfajor no supermercado dos chineses a galera faz conversão de moeda. Buenos Aires, desta maneira, fica parecendo o maior shopping horizontal da América Latina, espécie de parque temático tupiniquim. Em Palermo Hollywood, nosso Jurerê Internacional, metade das lojas tem um adesivo colorido no vidro anunciando liquidação – Rebajas – aos turistas ávidos. Depois, os brasileiros chegam aqui pensando que são ricaços porque o real vale dois pesos e logo percebem que a vida, mesmo em Buenos Aires, pode ser dura. O que tem de novo rico em Puerto Madero reclamando do preço da janta não está no gibi. O povo vai jantar com a família inteira em um dos lugares mais finos da América Latina e acha que está na Lagoa da Conceição.

Acontece que as matérias de viagem publicadas nos jornais de todo Brasil geralmente vendem a ideia de que Buenos Aires é o caminho mais rápido – ou seja, mais barato – pra conhecer a Europa. Eu, particularmente, acho que se algum brasileiro tem vontade de conhecer os países da Europa, que economizem até o final do ano. Por um lado, Buenos Aires passa a ser representada como uma Paris de segunda mão; por outro, como uma grande feira intercontinental. Isso faz com que grande parte dos turistas conheça uma cidade que, no final das contas, não existe.

2 comentários:

Anônimo disse...

Já que vc está se esforçando para dar o exemplo, tomando porre de castellano e aprendendo a confraternizar com os hermanos, aceitei a sua sugestão. Hoje começo "Os Detetives Selvagens".

¡Saludos!

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Alessandra Knoll Pereira disse...

É bem verdade, Buenos Aires que pintam por aí não existe. O pior é ir pra lá e ver que os nossos ficam só na Florida, fazendo compras. Mas tem um lugar que ainda é mais difícil encontrar brasileiros que as livrarias lá em: O museu de Bellas Artes.