8.8.11

Cenas portenhas

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Por Victor da Rosa para Diário Catarinense

Pela maioria das ruas do centro de Buenos Aires, principalmente de noite, milhares de papéis com propagandas de prostitutas – com fotos, telefones, endereços e os preços, curiosamente, quase sempre em preto e branco – são pregados em qualquer lugar que fique na altura dos olhos: postes, telefones públicos, pontos de ônibus e até mesmo nas motos que permanecem durante algum tempo estacionadas. Os pequenos papéis são disponibilizados em várias séries, colados por uma de suas extremidades, de uma forma que seja possível arrancá-los rapidamente, por exemplo – sem rasgá-los – para guardar o pecado no bolso. Além das inúmeras pessoas que utilizam o serviço, outras também – como pude perceber umas três ou quatro vezes – fazem questão de arrancar as propagandas e jogá-las no lixo. Os papéis aparecem e desaparecerem das ruas com a velocidade e o segredo das ideias erradas.

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Tenho a impressão de que os argentinos não cuidam dos seus carros como fazem os brasileiros. Quando estacionam, rente às calçadas, eles costumam deixar seus carros no ponto morto para que outros carros, estacionados na frente ou atrás, possam lhe dar pequenas batidinhas e movê-los alguns centímetros, tornando a manobra mais fácil e rápida. Tive o privilégio de presenciar o motorista do carro que estava sendo batido esperar pacientemente na calçada até que o outro pudesse seguir o seu destino. Em Buenos Aires, dificilmente você encontrará um carro em perfeito estado, sem batidas, pintado e limpo, como são os carros dos meus primos, por exemplo.

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No albergue, conheci um senhor muito carismático, o Tony – ele deve ter, segundo os meus cálculos, uns 65 anos – que foi chefe da torcida organizada do Racing, equipe tradicional do futebol argentino, mas que não ganha títulos importantes há uns quarenta anos. Como eu já tinha visitado o estádio do Boca Juniors, que oferece todo um esquema para receber turistas, com museus e visitas guiadas, meu novo amigo queria que eu conhecesse também o estádio e a sede do Racing, que não são abertas ao público (por falta de estrutura, suponho), mas que seria possível visitar graças a sua influência. Quando chegamos no café da sede do clube, meu amigo ficou branco e extático de repente. Em uma mesa no canto, sozinho, estava um dos principais jogadores argentinos de todos os tempos, Humberto Maschio, um dos primeiros que jogou na Europa – ganhou vários títulos com a Inter da Itália – e que vestiu a camisa dez do Racing justamente quando a equipe foi campeã mundial, no ano de 1967, ocasião em que Tony tinha 15 anos de idade. Nesta decisão, Tony acompanhou o jogo com um rádio de pilha.

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Em La Boca, bairro ao mesmo tempo turístico e periférico de Buenos Aires, o turismo acaba cedo. Depois das 19h, quando o dia começa a escurecer, todas as ruas ficam vazias e os policiais começam a circular. Eu descobri isso apenas quando um carro com três destes policiais parou do meu lado e então um deles, com voz de policial, me perguntou para onde eu estava indo. Pra tornar a situação descontraída, e pra mostrar a eles que eu não era um turista como os outros, respondi que também estava perdido, assim como eles – era uma piada, naturalmente – e um segundo policial, com a mesma voz, explicou que eu estava no lugar mais perigoso do bairro. Os dois então abriram a porta, sairam do carro e me disseram como eu fazia pra sair dali.

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