29.8.11

Nem tanto o céu...

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Por Victor da Rosa para Diário Catarinense




Como sempre, há quem adore o novo filme de Lars Von Trier e há quem deteste. Isso de gostar e não gostar acontece com toda peça de arte, as pessoas acham o que querem das suas vidas, tem gente que gosta de salada de rúcula, por exemplo; mas com os filmes de Lars Von Trier as discussões sempre acabam em brigas de bar, declarações fortes, expulsões de festival, estas coisas. Tem críticos de cinema que chegaram a comparar Melancolia com Stalker, de Tarkosvky; outros afirmaram que, como sempre, Lars não passa de um polemista de folhetim, cineasta de efeito. Eu, como não sou uma coisa nem outra, gostei e não gostei. Depois explico.

Sejamos justos, por ora: há alguma graça nesta postura meio adolescente de Lars Von Trier. Mas ser polêmico, de qualquer modo, também pode ser muito fácil; e no caso de Lars, na maioria das vezes, a polêmica é um banquete ao jornalismo de entretenimento, banquete servido em bandeja de prata. Em Cannes, como se sabe, depois de afirmar que “entende Hitler”, o cineasta foi expulso do Festival e, se não bastasse, ao invés de ir pra casa refletir sobre a vida, permaneceu na cidade vizinha dando entrevistas. Tipo a Sandy. Assim, sei lá, não vamos muito longe.

Em cartaz nos melhores cinemas do Estado, que não são muitos, Melancolia está dividido em duas partes: “Justine” e “Claire”, justamente o nome das duas irmãs meio tristes do filme; a segunda é uma moça mais otimista, digamos assim, e a outra é mais pra baixo, um pouco desajustada mesmo, igual estas meninas que vão dançar no Blues Velvet toda sexta-feira. Em Cannes, na mesma entrevista que gerou polêmica, Lars disse que Melancolia tem final feliz, diferente dos seus filmes anteriores, o que é claramente irônico. No final do filme – quem ainda não viu já deve saber – o mundo acaba. No final todo mundo morre, aliás, e é a gente que fica na pior, como me disse um amigo daqueles bem pessimistas: vivos. Ou seja, a gente percebe que, saindo do cinema, tem que pegar dois ônibus pra voltar pra casa. Em todo caso, temos a certeza de que, além do mundo, o filme também chegou ao fim, e isso é ótimo.

A primeira parte de Melancolia é uma espécie de farsa, como acontece com outros filmes de Lars; e a segunda quer ser uma tragédia. Mas como fazer uma tragédia, neste caso, com o maior dos clichês hollywoodianos? Parece roteiro de gibi, afinal: um planeta chamado Melancolia resolve dar uma volta na via láctea, esbarra na terra e todo mundo morre. E eu realmente não entendi como aquele planeta foi capaz de fazer um looping, mas esta é outra história. Quer dizer: na primeira parte do filme, Lars até leva a sério a nossa desgraça, mas sabe também rir dela; na segunda, o cineasta parece querer nos ensinar algo que já estamos fartos de saber, sem que exista qualquer espaço para a nossa imaginação. Fiquei com a impressão de que esta é a face tirana de Lars Von Trier. Lars: todo mundo já sabe que a humanidade é um projeto que não deu muito certo, mas a gente vai levando. Bola pra frente.

As duas partes de Melancolia, portanto, se apresentam como dois filmes diferentes. Eu gosto do primeiro filme, que se chama “Justine” – e até me divirto, pois a noiva é realmente muito engraçada, quase uma personagem bufa – tanto quanto não vejo o menor interesse em “Claire”, o segundo. Em ambos os casos, como todos os personagens são estereótipos e por isso não se alteram – a moça triste será sempre triste, a mãe megera, o pai depravado, o cunhado rico, a irmã chata – o fim torna-se sempre previsível: a ruína do casamento e do mundo também. A diferença é que uma farsa deve ser previsível mesmo; mas uma tragédia não. Quando rever o filme, por isso, vou desligar no fim da primeira parte. Não sugiro isso aos outros, pois cada um pode pensar diferente de mim.

5 comentários:

gilvas disse...

rosa, eu te entendo: a claire é mais gatinha.

o planeta dá uma volta estranha porque ele também é uma mulher adolescente, daquelas que dançam no blues na sexta e esbarram em ti geralmente não causando nada mais do que um derramar de heineken.

Anônimo disse...

não vi o filme ainda, mas sei que vou amar como amei o comentário acima. fiquei com mais vontade ainda de ir ao cinema agora.

Victor da Rosa disse...

não entendo o motivo de tanta certeza

Anônimo disse...

eu também não entendo, é algo que está acima da razão. rs.
ah, esqueci de dizer que gostei do texto também. foi divertido. depois de ver o filme talvez pense diferente.

Diogo disse...

divulgando o textinho pro amigo:

http://aspipas.blogspot.com/2011/08/entrevista-com-james-joyce.html