15.8.11

Pente fino

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Por Victor da Rosa para Diário Catarinense

Omar Piando – que ganhou este sobrenome porque costuma contar muita vantagem – apareceu dia destes com um dilema. Um dilema, aliás, bem na altura pescoço. O cara conheceu uma moça na Travessa Ratcliff, bebeu três doses de cachaça, ficou todo serelepe e acordou com um roxo no pescoço. O roxo no pescoço todo mundo entende, não precisamos dar os detalhes, mas e o dilema? O dilema é que Omar estava noivo; e já fazia, por baixo, uns três anos que enrolava pra casar.

O Omar é daqueles caras que, se fosse celebridade, não encheria duas páginas de uma biografia, pois tem uma vidinha mais sem graça do que futebol italiano, mas se ele mesmo fosse escrever as suas memórias, se deixassem o cara contar tudo que conta aos amigos na mesa do boteco, o livro seria um calhamaço. Queremos dizer com isso, trocando em miúdos, que Omar é mentiroso.

Desta vez, no entanto, Omar narrou a cena do crime e mostrou a prova. Aliás, com uma prova daquelas, não era preciso narrar coisa alguma. O roxo estava feio. A moça que realizou o serviço devia ser a estagiária do Drácula. A verdade é que quando Omar encontrou os amigos no samba, em um sábado de sol, pra contar a primeira verdade do mês, chegou meio desanimado. O sol de sábado, de qualquer modo, iluminava os fatos da sexta. Nem a gola da camisa de flanela xadrez – nosso amigo é artista plástico e por isso tem muitas camisas de flanela – era capaz de esconder a nova pintura no pescoço.

– Estou com um roxo aqui... – disse o Omar aos amigos, enquanto sentava, sem nem dar boa tarde direito, preocupado e circunspecto.

Omar virou o pescoço de lado, os amigos deram uma olhada, fizeram semblante de propaganda de cerveja e um deles sentenciou:

– Rapaz, você está é com a corda no pescoço!

– Isso aí foi o beijo da mulher aranha! – sugeriu um conhecedor de cinema nacional.

– Virou picolé de perua? – perguntou o outro.

No máximo, Omar dava um riso triste de resignação, como quem reconhece o valor de uma piada, e só. Os amigos pediram um copo pro Omar, mas naquele dia ele não queria beber. Além do mais, iria encontrar a noiva dali a umas duas horas. E estas manchas demoram uns bons dez dias pra sair. Se já era muito chegar com um roxo no pescoço, quis evitar pelo menos o gosto da cerveja no beijo.

Por sua vez, os conselhos dos amigos foram de mal a pior. Um dizia pra esfregar gelo no pescoço. Outro falava pra tascar um band-aid e dizer que cortou fazendo a barba. Teve outro que sugeriu passar limão e deitar no sol. A estas alturas, a conversa já havia alcançado as duas mesas do lado. Até a irmã de Omar, em casa, mesmo sabendo da história toda, havia passado uma maquiagem pra disfarçar um pouco, mas não teve jeito. Por fim, quando o nosso amigo já estava entregando os pontos, demos uma idéia da qual nos orgulhamos e que fica de graça para os leitores que um dia precisarem: consultar o Google.

Omar correu no cyber café e digitou: “chupão pescoço tirar por favor”. O primeiro site que apareceu, para a alegria do nosso amigo, que tem mais sorte do que juízo, deu a solução: passar pente fino sobre a mancha. Na última quarta-feira, Omar nos mandou um e-mail contando a solução e dizendo que, depois do aperto, inclusive, resolveu casar. Enfim. Alegrias para o casal. E que a nova esposa do Omar não seja nossa leitora.

4 comentários:

mara paulina arruda disse...

Muito joia Victor da Rosa. Eu adoro suas crônicas que falam do trágico e cômico que somos nós, os dito seres humanos. Um abraço.

Anônimo disse...

MAIS UMA RUIM, AMIGO

Anônimo disse...

sinceramente, esse lance do pente fino nao funciona, por experiencia

bibi move disse...

muito boa!