26.9.11

Isto não é um assalto

.
Por Victor da Rosa para Diário Catarinense

Fui assaltado. Já faz mais de um mês e agora posso analisar os fatos com a frieza de um gato.

Nunca tinha sido assaltado antes. Francamente, não é uma experiência tão ruim como apregoam por aí. A primeira sensação – caso você permaneça vivo, como foi o meu caso – é de triunfo. Quase de heroísmo. Você se sente como se fizesse parte do todo, do tecido social. Como se tivesse participado de algo realmente importante. Você se modifica.

Na verdade, é difícil descrever todas as sensações com precisão. Quando o sujeito quase me enforcou por trás e ameaçou me esfaquear, no começo de tudo, pensei que se tratava de alguma espécie de brincadeira. Quando eu era criança, meus amigos faziam brincadeiras desse tipo. Por exemplo, tapar os olhos da pessoa e perguntar quem é. Mas isso só faria algum sentido caso eu não estivesse caminhando por um bairro pobre da Argentina, ou seja, a uma distância de mais ou menos 1.500km do lugar onde se encontra a grande maioria dos meus amigos. E eu nem tenho tantos assim. Mas isso também não importa. O que importa é que ser assaltado, por um segundo, alterou meu estado de consciência: eu esqueci quem era, onde estava e o que fazia ali.

Pra dar uma ideia da minha vertigem, eu não percebi que um dos sujeitos que me assaltou – eram dois, o segundo chegou depois – estava de capacete. Fiquei de frente com ele durante muito tempo, olho no olho, e não fui capaz de perceber esse detalhe. Aliás, eu também não faço a menor ideia do tempo que durou toda a cena. Pode ter sido trinta segundos ou cinco minutos. De fato, é como se não houvesse mais o tempo, esta coisa fugaz que ordena os nossos hábitos. Como se o tempo se suspendesse no vazio. E tudo isso é realmente muito interessante. A moça que estava comigo – e que foi muito mais corajosa do que eu, pois ela deu um sopapo em um dos caras, por exemplo – é que me falou depois sobre a história do capacete. Ninguém roubou nada dela.

Depois, quando você percebe que está sendo assaltado realmente – tem assaltantes que, pra facilitar a nossa vida, e isso é ótimo, anunciam o assalto – aí a coisa muda de figura. Não sejam bobos de bancar o herói nesse momento. Deixe pra bancar o herói na mesa de bar, bem depois, quando for contar a experiência aos amigos, às mulheres e talvez até mesmo à polícia. Embora eu ache que para a polícia ninguém precisa bancar o herói. Mas enfim. Nessa hora, como eu dizia – ou seja, no momento em que você descobre que está sendo assaltado realmente – o melhor a fazer é bancar o sujeito boa praça. Conheci gente que se complicou feio por causa de trinta reais. Em outras palavras, o melhor a fazer é curtir o momento sem se exceder muito.

Quando os assaltantes foram embora com a minha carteira – tinha uma verdadeira bagatela lá, além de um CPF quebrado e duas passagens de metrô – eu pude pensar em paz sobre a situação. Então senti um pouco de pena e um pouco de raiva ao mesmo tempo. Senti pena porque não queria estar no lugar deles. Deve ser muito desagradável roubar. Mais do que ser roubado, certamente. Os dois estavam mais nervosos do que eu – isso eu percebi bem – e todos nós estávamos mais nervosos do que a moça que estava comigo, a pessoa mais tranquila de todas. Além do mais, não havia quase nada na minha carteira. A verdade é que nem mesmo a própria carteira se encontrava em condições reais de uso.

A raiva, por sua vez, eu senti por motivos óbvios. Senti pena porque não queria estar no lugar deles, como disse. E raiva porque não queria estar no meu.

4 comentários:

Alessandra Knoll Pereira disse...

essa do tempo relativo é parecida com a experiência de quando o carro que tu estás bate.

anönimo disse...

não terminou bem.

mara paulina arruda disse...

Se cuide Victor da Rosa!!

O Impenetrável disse...

realmente me encontrei no seu blog. tudo muito interessante e textos de um ótimo bom gosto.

parabéns!