19.9.11

Preto no branco

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Por Victor da Rosa para Diário Catarinense




Um vídeo comemorativo dos 150 anos da Caixa Econômica Federal, lançado oficialmente na semana passada, cometeu uma das gafes federais mais estúpidas dos últimos 150 anos. A propaganda mostra o escritor Machado de Assis, que de fato foi cliente da Caixa durante muitos anos, indo fazer o último depósito em sua conta, justamente no banco fundado pelo imperador Dom Pedro II. “Vim fazer o que faço todos os meses, um depósito na poupança”, diz o Bruxo do Cosme Velho a um bancário que lhe chama de doutor. O vídeo seria muito simpático se Machado, que era mulato, como todo mundo sabe, não aparecesse representado como se fosse branco, quase um escandinavo. Mais branco do que pena de avestruz, como disse um amigo meu.

Aliás, não só Machado de Assis aparece como se fosse branco no vídeo; e sim toda a sociedade carioca do começo do século 20. Que espécie de Rio de Janeiro é este em que não há negros e mulatos andando pela rua? Um encontro do mIRC no Shopping Leblon? De fato, em 61 segundos de vídeo, além da Glória Pires dizendo que pensar no futuro é algo muito importante – pensar no passado, pelo jeito, não é muito – aparecem mais ou menos uns 50 figurantes no comercial; todos brancos. Todos. Eu contei. Preconceito racial? É óbvio que sim. De um publicitário? de todos nós? do Brasil? Vai saber. A questão é que talvez ainda seja difícil para as nossas elites entenderem uma coisa: o maior escritor de lingua portuguesa foi um afro-descendente.

Machado de Assis não era filho de escravos, mas de agregados. Seu pai, Francisco José de Assis, era um negro que pintava paredes; sua mãe, Maria Leopoldina, era uma portuguesa – branca, pobre – nascida em uma ilha dos Açores. Mesmo sem ter grandes oportunidades de formação – mal estudou em escolas públicas e jamais frequentou universidades – Machado tornou-se reconhecido, mas a duras penas.

Com menos de 20 anos de idade, já publicava poemas e crônicas em jornais. Mesmo depois de ter escrito romances como Memórias Póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro, Machado não era consenso entre os leitores. Silvio Romero, um dos principais críticos da literatura brasileira no século 19, fazia restrições a sua literatura, por exemplo, mas a história foi capaz de provar que estava errado. De fato, se ainda hoje temos dificuldades para entender que o escritor mais importante do país era mulato, quem dirá os formadores de opinião de uma sociedade escravocrata? E agora vem uma instituição federal dizer que Machado de Assis e Caco Antibes são a mesma pessoa.

Os erros históricos do vídeo da Caixa Econômica – e erro histórico, no caso, pode servir também como eufemismo de preconceito racial – não acabam nisso. Em 1908, já à beira da morte, Machado de Assis não estava tão saudável e feliz como o vídeo mostra. Depois, Machado era gago. O que nos faz concluir que preconceito, estupidez e burrice, que não são exatamente a mesma coisa, andam juntos.

A justificava da Caixa, divulgada na última sexta-feira através de sua assessoria de imprensa, é como se fosse um daqueles recados escritos pelo próprio Brás Cubas, de tão cínica, uma boa peça tupiniquim. O texto diz que "o banco sempre se notabilizou pela sua atuação pautada nos princípios da responsabilidade social e pelo respeito à diversidade”; e depois: “a Caixa sempre busca retratar em suas peças publicitárias toda a diversidade racial que caracteriza o nosso país." Faltou dizer, enfim, que agora está tudo preto no branco.

6 comentários:

Anônimo disse...

zzzzZZZzzZzz

Pádua Fernandes disse...

Muito importante denunciar este caso de racismo institucional - Ana Maria Gonçalves também o fez na Fórum.. Para somar mais um aos preconceitos que o escritor sofreu, Silvio Romero ainda atacou a epilepsia de Machado de Assis.
Abraços, Pádua

Ana Peluso disse...

Isso não é racismo, é falta de neurônio.

E seu texto está excelente.

André disse...

Excelente o texto, Victor. Gostei muito.

Alessandra Knoll Pereira disse...

muito bom teu "toque". Eu sempre penso nisso, sobre os escritores negros, ainda mais tendo aqui em Floripa o palácio Cruz e Souza. E na hora que eles poderiam mostrar isso, como um orgulho negro (uma forma de passar a mensagem a todos de "se ele pode você também pode" ou algo assim) eles cometem essa mancada!
Muito bom foi ler sua página e relembrar a vida de Machado, pena que parece que tenta gente ainda não sabe de coisa alguma, ou não querem admitir.
Abraço!

Pádua Fernandes disse...

É claro que se trata de racismo. Desde quando racismo só o é se for inteligente?
Ademais, não é muito inteligente achar que os racistas são, em geral, brilhantes: é fácil constatar que preconceito e ignorância muitas vezes convivem.