24.10.11

Querido Walser

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Por Victor da Rosa para Diário Catarinense







Não é sempre que a gente lê um escritor que entra para a nossa lista dos cinco preferidos, sobretudo quando estão na lista os seguintes nomes: Beckett, Kafka, Dostoiévski, Machado de Assis e César Aira. Não necessariamente nessa ordem; aliás, colocar ordem nesta lista seria um completo desatino, pra não dizer uma insolência. Todo mundo deveria fazer uma lista assim, é divertido, e além do mais ajuda a organizar a nossa vida, embora também seja uma perda de tempo. Seja como for, com exceção do Aira – único desconhecido entre nós – não deixa de ser uma lista bastante óbvia. Mas não faz mal.

É claro que outros escritores sempre rondaram essa lista – Flaubert, por exemplo, ou mesmo Faulkner – e em alguns momentos até participaram dela, mas logo depois o entusiasmo era reduzido ou mesmo acabava. Por exemplo, quando li O Som e a Fúria, do Faulkner, não conseguia falar de outra coisa durante vários dias, tamanho o amor, e imaginei que ele jamais sairia da minha lista; mas depois passei a ler outros de seus romances, todos bem inferiores, e a minha devoção simplesmente acabou. Um mistério. Como não vejo nenhum sentido em fazer uma lista com 10 escritores preferidos, pois isso abriria precedentes para fazer uma lista com 15 ou 20, então estes outros escritores passaram a não ocupar mais um lugar especial na minha prateleira e no meu coração.

Apesar de óbvia, minha lista também não deixa de ser um pouco estranha. Além de não ter franceses e americanos, há nela um argentino e um brasileiro, além de um russo, um irlandês e um tcheco; o que prova que em qualquer lugar do mundo pode nascer uma literatura de primeira qualidade. Depois, há muita coisa em comum nos cinco escritores da minha lista. Todos são um pouco engraçados e meio alucinados, por exemplo. Na verdade, Machado não era tão alucinado assim, pelo menos é o que dizem, mas isso não faz dele alguém pior. Outra semelhança é que nenhum deles é bonito. Beckett é o melhorzinho. E todos possuem uma obra vasta.

Mas por que estou dizendo tudo isso? Acabo de ler uma série de livros de Robert Walser – um dos romances, Jakob von Gunten, foi publicado dia desses pela editora Cia das Letras – e agora ele vai entrar pra minha lista dos cinco preferidos, ou seja, algum daqueles terá que sair. O problema de ler um grande livro consiste no que você vai fazer depois. Em todo caso, ler é uma boa maneira de arrumar problemas. Como viver, aliás. Mas a vida não é uma escolha, e sim uma contingência. E pra falar a verdade, a vida não vem ao caso agora. Eu dizia que terminar um grande livro é muito pior do que começar. Quando você termina de ler um livro muito bom, provavelmente vai ler outro pior depois. Mas como estou tagarela hoje!

O que eu gostaria de dizer é que Robert Walser é tão maluco quanto os outros escritores da minha lista. Talvez um pouquinho mais. Walser passou os últimos 27 anos de sua vida morando em um manicômio, onde entrou por vontade própria. Quem entra em um manicômio por vontade própria? “Não estou aqui para escrever, mas para ser louco”, teria dito o escritor. No entanto, apesar de ter dito isso, Walser escreveu no manicômio aproximadamente mil pequenas histórias com letras tão minúsculas que os especialistas em sua obra levaram dez anos para transcrever depois. Foi lá também que o escritor morreu, como um autêntico personagem de seus livros: encontrado na neve por um grupo de crianças no Natal de 1956. Enfim, além de sua literatura, tudo isso faz de Robert Walser alguém muito estranho e muito especial.

4 comentários:

gilvas disse...

victor, eu ainda não li o som e a fúria. li outros cinco ou seis romances do faulkner, e é bom que o som e a fúria seja realmente soberbo, pois palmeiras selvagens, luz em agosto, enquanto agonizo, o intruso, a mansão, diabos, são romances excelentes.

quanto ao walser, há de se avaliar se não seria um caso de a vida, ou a morte, do autor ser mais interessante do que os livros em questão. chances are.

Victor da Rosa disse...

porra, você já leu tudo isso do faulkner e não leu o som e a fúria? sei lá, talvez você não ache o melhor, vai saber. acho palmeiras selvagens uma brincadeira de criança do lado do som e fúria.

acho que a vida do walser nem é tão interessante, não. a literatura dele é o que mais de mais engraçado. jakob é bem bom - "um bom livro", segundo o kafka - mas a rosa e principalmente o salteador, cara, são incríveis. sei lá, eu morro de rir. você já leu algo? depois me diz.

Anônimo disse...

lendo o seu 'retrato' (seu, de clarice, de g.h.) e ainda sob o efeito da sua lista de escritores 'queridos' (que no seu espelho revelam 'malditos' ou 'estranhos', apenas), pensei:

no relato (instantâneo espalhado no tempo) do contato com o neutro (o escuro, o oceânico, aquilo que está no fundo) o que permanece não dito é o sofrimento.

porque dói, victor.

Anônimo disse...

lendo o seu 'retrato' (seu, de clarice, de g.h.) e ainda sob o efeito da sua lista de escritores 'queridos' (que no seu espelho revelam 'malditos' ou 'estranhos', apenas), pensei:

no relato (instantâneo espalhado no tempo) do contato com o neutro (o escuro, o oceânico, aquilo que está no fundo) o que permanece não dito é o sofrimento.

porque dói, victor. acho que esse é o sentido de 'paixão'. mas, por outro lado, o agudo da dor costuma apagar todo o resto e então acabo pensando que faz sentido ignorá-la.

ok, nego: esquece o que te disse... apaga tudo.