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Por Victor da Rosa para Diário Catarinense
Por Victor da Rosa para Diário Catarinense
Não sabia que Steve Jobs era assim tão querido por todos. Tenho uma amiga, por exemplo, que chorou com a sua morte. Confesso até que seu nome não me dizia muita coisa antes de quarta-feira, dia em que Jobs empacotou com um câncer no pâncreas. Aliás, como é que um cara com tanta grana pode morrer assim? Ou melhor, como é que um cara com tanta grana assim pode morrer? Na verdade, quando me disseram que o Jobs morreu, no boteco, eu logo pensei que tinha sido aquele meia-atacante de futebol que jogou no Bahia e no Botafogo, o Jóbson, que foi pego no antidoping dia destes por uso de alucinógenos e está sempre metido em confusão. Daí eu disse que ele era realmente muito novo pra morrer e o pessoal no boteco todo concordou. Joga muita bola o Jóbson.
Minha tia, a Rosette Rosa, também estava no boteco comigo. Ela, que não liga muito pra computadores e se nega a ouvir música em formato mp3 – pois aprecia mesmo é um jantar dançante no forró do Trintão – é outra que nunca tinha ouvido falar do sujeito. Informática, para a tia Rosette, só tem serventia quando ela quer arrumar namorados na internet. O computador dela, como ela mesmo diz, é mais velho do que a Aracy de Almeida dando piti no show de calouros do Silvio Santos. Quero dizer com isso que a Rosette, quando chegou em casa e viu tantos noticiários falando do fundador da Apple, não entendeu muito bem a comoção com a morte de um absoluto desconhecido.
– Se já foi assim com o Steve sei lá das quantas, como vai ser quando morrer o rei Roberto Carlos? – pergunta ela, que me ligou no celular no outro dia para comentar o caso.
Eu digo pra tia que não é bem assim, que já foram vendidos 300 milhões de iPods no mundo, que Steve Jobs mudou a relação entre arte e tecnologia, e ela responde que, se for por isso, o rei Roberto já gravou 12 milhões de discos, vendeu 150 milhões de cópias, cantou 5 milhões de vezes na Rede Globo e fez 30 milhões de filhos; isso ainda sendo feio, com voz de taquara rachada e com aquele corte de cabelo que dispensa comentários. Tudo isso foi ela que me disse. E quem sou eu diante dos argumentos de minha tia? Rosette Rosa é uma verdadeira sofista, além de adorar os números, e por isso dificilmente perde uma discussão.
Para Rosette, na verdade, muita gente é mais importante do que Steve Jobs. Rosete acha que deveríamos dar mais atenção para verdadeiras personalidades nacionais como Benito di Paula e Odair José, seus dois cantores favoritos, que não venderam tantos discos como o rei Roberto e nem possuem tanta grana como Jobs, mas fazem parte da sua história de vida como ninguém mais. A tia Rosette, que a estas alturas já estava se contradizendo toda, não parava de falar. E depois de meia hora de conversa, ela sempre dá um jeito de colocar os maridos que já teve – e ela teve muitos – no meio da discussão; seja a discussão sobre quem será o campeão brasileiro desse ano ou sobre a crise monetária internacional.
Minha tia, que nunca fez questão de cozinhar pra marido malandro, considera comida congelada, pipoca de microondas e macarrão miojo, principalmente o miojo de camarão, invenções muito mais úteis do que iPhones, iPods e iPad. Ela diz que vive muito bem sem um tablet, mas não concebe a própria vida, por exemplo, sem o sutiã. De resto, Rosette já está chegando aos cinquenta anos, é uma mulher de outra geração e suas opiniões refletem outro tempo, embora ela não diga sua idade pra ninguém.
2 comentários:
gosto do tom humorado do texto, mas acho que o mundo perdeu uma grande persona.
adorei o texto. agora, francamente, vc não conhecer o jobs??? e aquela foto do mouse de mac que tinhas no blog uma época? acaso só?
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