10.10.11

Rosette Rosa e o iPad

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Por Victor da Rosa para Diário Catarinense

Não sabia que Steve Jobs era assim tão querido por todos. Tenho uma amiga, por exemplo, que chorou com a sua morte. Confesso até que seu nome não me dizia muita coisa antes de quarta-feira, dia em que Jobs empacotou com um câncer no pâncreas. Aliás, como é que um cara com tanta grana pode morrer assim? Ou melhor, como é que um cara com tanta grana assim pode morrer? Na verdade, quando me disseram que o Jobs morreu, no boteco, eu logo pensei que tinha sido aquele meia-atacante de futebol que jogou no Bahia e no Botafogo, o Jóbson, que foi pego no antidoping dia destes por uso de alucinógenos e está sempre metido em confusão. Daí eu disse que ele era realmente muito novo pra morrer e o pessoal no boteco todo concordou. Joga muita bola o Jóbson.

Minha tia, a Rosette Rosa, também estava no boteco comigo. Ela, que não liga muito pra computadores e se nega a ouvir música em formato mp3 – pois aprecia mesmo é um jantar dançante no forró do Trintão – é outra que nunca tinha ouvido falar do sujeito. Informática, para a tia Rosette, só tem serventia quando ela quer arrumar namorados na internet. O computador dela, como ela mesmo diz, é mais velho do que a Aracy de Almeida dando piti no show de calouros do Silvio Santos. Quero dizer com isso que a Rosette, quando chegou em casa e viu tantos noticiários falando do fundador da Apple, não entendeu muito bem a comoção com a morte de um absoluto desconhecido.

– Se já foi assim com o Steve sei lá das quantas, como vai ser quando morrer o rei Roberto Carlos? – pergunta ela, que me ligou no celular no outro dia para comentar o caso.

Eu digo pra tia que não é bem assim, que já foram vendidos 300 milhões de iPods no mundo, que Steve Jobs mudou a relação entre arte e tecnologia, e ela responde que, se for por isso, o rei Roberto já gravou 12 milhões de discos, vendeu 150 milhões de cópias, cantou 5 milhões de vezes na Rede Globo e fez 30 milhões de filhos; isso ainda sendo feio, com voz de taquara rachada e com aquele corte de cabelo que dispensa comentários. Tudo isso foi ela que me disse. E quem sou eu diante dos argumentos de minha tia? Rosette Rosa é uma verdadeira sofista, além de adorar os números, e por isso dificilmente perde uma discussão.

Para Rosette, na verdade, muita gente é mais importante do que Steve Jobs. Rosete acha que deveríamos dar mais atenção para verdadeiras personalidades nacionais como Benito di Paula e Odair José, seus dois cantores favoritos, que não venderam tantos discos como o rei Roberto e nem possuem tanta grana como Jobs, mas fazem parte da sua história de vida como ninguém mais. A tia Rosette, que a estas alturas já estava se contradizendo toda, não parava de falar. E depois de meia hora de conversa, ela sempre dá um jeito de colocar os maridos que já teve – e ela teve muitos – no meio da discussão; seja a discussão sobre quem será o campeão brasileiro desse ano ou sobre a crise monetária internacional.

Minha tia, que nunca fez questão de cozinhar pra marido malandro, considera comida congelada, pipoca de microondas e macarrão miojo, principalmente o miojo de camarão, invenções muito mais úteis do que iPhones, iPods e iPad. Ela diz que vive muito bem sem um tablet, mas não concebe a própria vida, por exemplo, sem o sutiã. De resto, Rosette já está chegando aos cinquenta anos, é uma mulher de outra geração e suas opiniões refletem outro tempo, embora ela não diga sua idade pra ninguém.

2 comentários:

Adriana Karnal disse...

gosto do tom humorado do texto, mas acho que o mundo perdeu uma grande persona.

Anônimo disse...

adorei o texto. agora, francamente, vc não conhecer o jobs??? e aquela foto do mouse de mac que tinhas no blog uma época? acaso só?