21.11.11

Lula e as imagens

Por Victor da Rosa para Diário Catarinense




Após as polêmicas em torno do câncer de Lula, algumas das maiores revistas brasileiras de política, como a Época, a Carta Capital e a Veja, dedicaram suas principais reportagens ao assunto. Eu não li nenhuma delas, mas passei algum tempo analisando suas capas. Aliás, parado bem no meio da banca de revistas, eu sentia como se estivesse dentro da caverna de Platão: um mundo onde todas as imagens, e só elas, estão acessíveis. De fato, diferentes imagens de Lula aparecem nas capas. O tom das manchetes, por sua vez, varia entre e a neutralidade e a defesa do ex-presidente: “Lula, a doença e a estupidez”, “O SUS e o preconceito”, entre outros; mas são as imagens, e não as manchetes, que parecem nos dizer os maiores segredos.

Na capa da Carta Capital, Lula aparece olhando para o alto, de perfil, esperançoso e com os olhos um pouco marejados; na Época, ele olha para frente, destemido, determinado, embora com um sinistro fundo completamente escuro; na Veja, certamente a foto mais controversa, o ex-presidente olha para baixo, com uma das mãos diante da boca, tossindo, sem ânimo, enfim: trata-se de uma foto que, em todos os seus aspectos, acentuada pelas cores cinzentas da capa, enfatiza a falta de vida. Pouco importa, nesse caso, qual imagem corresponde melhor ao estado de vida de Lula; o que as diferentes fotos parecem revelar é que, na sociedade do espetáculo, as guerras são travadas, antes de tudo, através das imagens.

Toda a trajetória política de Lula, de fato, poderia ser dividida em dois momentos. No primeiro, Lula acredita que a política é uma guerra de discursos; depois, passa a entender que as imagens são fundamentais. Lula levou quinze anos – três eleições – para aprender o que, afinal, parece tão óbvio: um político deve ser uma espécie de marionete de si próprio. E nisso Lula é brilhante como só os grandes artistas souberam ser.

Portanto, não é aleatório que o pronunciamento de Lula após o início do tratamento do câncer, sua resposta a todas as polêmicas, aconteça justamente através de duas fotografias. Na última semana, como diversos jornais estamparam também em suas capas, Lula apareceu cortando o cabelo e a barba, se antecipando assim à queda decorrente da quimioterapia. São imagens bem eloqüentes, além de perfeitamente construídas – os planos, as cores, tudo nelas é devidamente calculado – apesar de sua aparente despretensão. Se Lula aparece com o rosto ainda sujo de creme de barbear, em uma das fotografias, é porque quer criar efeito justamente de espontaneidade.

Além do mais, há muita carga simbólica envolvida nelas. A barba, por exemplo, é um signo forte na imagem do ex-presidente, algo que vincula sua história ao tempo em que era sindicalista. Marisa, sua esposa, além de mostrar que Lula não está sozinho – de certo modo, ela quer representar a nós todos ali – também interpela as mulheres na medida em que aparece com o símbolo da campanha contra o câncer de mama em sua blusa. As duas fotografias nos dizem inclusive que Lula está acima da própria doença: é possível prever seus efeitos e se antecipar a ela. São imagens que transmitem força ao mesmo tempo em não abrem mão da delicadeza; se há algo de fragilidade nelas, há também confiança e sobriedade. Enfim, a divulgação dessas imagens, no interior de uma guerra de imagens, não deixa de ser uma estratégia política de quem sabe das coisas.

2 comentários:

Anônimo disse...

ESSA NAO FEZ SUCESSO NAO E MESMO AMIGO

Victor da Rosa disse...

olha, até q fez