28.11.11

Umas verdades sobre o falso

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Por Victor da Rosa para Diário Catarinense




Com o tempo, passei a ter certa admiração pelas pessoas falsas. E digo isso com toda a franqueza que me resta. O sujeito falso, apesar da minha admiração, sofre uma espécie de estigma social; em detrimento da verdade, que tem como seu principal representante o sujeito sincero, a falsidade sempre foi encarada como erro e até mesmo como falta de lealdade. Desde a Grécia Antiga, no tempo em que ainda nem existia o Facebook, quando Platão expulsa o poeta da República por considerá-lo portador de um discurso sem autenticidade, a falsidade já é vista como um mal. No entanto, o poeta só deu um passeio nas redondezas, pra despistar o Platão, e depois voltou.

Seja como for, é a falsidade que nos mantêm seguros; mais do que as leis, a polícia e o Estado, é a falsidade que possibilita o bom convívio social e também as vernissages com vinho branco e canapé na abertura das exposições realizadas na Fundação Cultural Badesc, por exemplo – sem dúvida, as melhores vernissages da Capital. Vernissage, aliás – que em francês significa “passar verniz” – tem tudo a ver com falsidade. Se a gente imaginar que a vida é uma grande vernissage, o que convenhamos não é nenhum absurdo, então estamos feitos.

O sujeito sincero, quando quer iniciar seu longo discurso a alguém, sempre inicia com a seguinte fórmula, uma palavra de ordem ao mesmo tempo arrogante e ingênua: “Agora você vai escutar umas verdades”. Nada mais falso! É uma fórmula arrogante porque só um arrogante pode considerar que possui qualquer domínio sobre a verdade; e pelos mesmos motivos é também uma fórmula ingênua. O sujeito falso, por sua vez, não tem a pretensão de dizer verdade nenhuma a ninguém. Por isso, com muito mais modéstia, ele é só sorrisos e tapinha nas costas. E entre meia dúzia de verdades e um tapinha nas costas, fico com o tapinha nas costas. Afinal, como diz o ditado, uma verdade dói; um tapinha (nas costas) não dói.

É por isso que não há nada melhor do que ter um desafeto falso. As aparências enganam, mas não faz mal. O desafeto falso jamais vai te importunar – seja nas próprias vernissages, através de indiretas desnecessárias, ou em longos e-mails no dia seguinte – e nem te dizer coisas desagradáveis e negativas. Até arrisco pensar que ter um desafeto falso é melhor do que ter um amigo verdadeiro. Um desafeto falso fala bem de você pela frente e mal de você pelas costas, como se sabe; um amigo verdadeiro, por outro lado, fala bem de você pelas costas e mal pela frente. O que é melhor? Como diz um amigo meu – que aliás é meio falso também – quem dá sentença pela frente é juiz ou, no máximo, psicanalista.

Além das vantagens de conviver com uma pessoa falsa, há também as vantagens de ser uma delas; mas não vamos imaginar que é algo tão simples, que acontece da noite para o dia. Nesse caso, a falsidade deve ser um exercício diário, submetido a um sistema de práticas que irá possibilitar que você alcance um estado de perfeição, como acontece com as artes maciais, por exemplo. Ninguém nasce falso, salvo engano; é uma coisa que se aprende. De fato, a pessoa que exerce a falsidade, seja jogador de futebol, artista ou concorrente ao Big Brother – embora, verdade seja dita, os artistas sempre têm uma pequena vantagem sobre os outros – costuma alcançar maior sucesso em suas atividades. Pelo menos é o que eu tenho visto na televisão.

3 comentários:

gilvas disse...

as artes marciais perderam um "r". coisa pouca, tu resolve com uma pincelada.

wilde tem um livro chamado "a decadência da mentira". ele está detonando os realistas, claro, mas a vibe é semelhante. quem foi que inventou esta dicotomia entre autenticidade e falsidade?

Suzana disse...

Ontem li o teu texto no DC, adorei.
Acabei de te conhecer (aqui no blog), gostei muito do que li.

Anônimo disse...

FINALMENTE VAI DESCOLAR UMA GATINHA COM AS CRONICAS NE AMIGO