19.12.11

Carlos Correria e o Exu

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Por Victor da Rosa para Diário Catarinense



Os taxistas, como todo mundo sabe, fazem de tudo um pouco. Além de transportar pessoas de um lugar a outro, os taxistas também, eventualmente, realizam as atividades de informantes secretos, investigadores de adultério, psicanalistas amadores, conselheiros sentimentais; e ainda outras coisas que, francamente, é melhor nem dizer aqui. Quem trabalha há mais de 20 anos na profissão, como é o caso do nosso taxista preferido, que atende pela alcunha de Carlos Correria, já está muito acostumado com tudo isso. No entanto, na semana passada, houve uma solicitação que pegou nosso amigo das horas noturnas de surpresa, a saber: evangelizador de Exu.

– Por essa eu não esperava! – suspira Correria, atento ao volante, enquanto faz um mistério antes de iniciar a narrativa dos fatos.

Carlos Correria foi atender a chamada de uma solteirona às oito da noite; como de costume, chegou cinco minutos antes, encostou o carro na frente da casa, deu duas buzinadas de leve – daquelas que se dá pra uma velhinha atravessar a rua, por exemplo – e ficou esperando. Nada da mulher aparecer. Nosso amigo então saiu do carro, acendeu um cigarro, pensou nas mulheres que amou, deu mais cinco minutos, olhou pra um lado, outro; e nada. Quando já estava imaginando que era trote, a mulher lhe chama da janela. Pede pro nosso amigo entrar. Estava mais branca do que neve na Suíça. Precisava de ajuda.

Essa coisa de ajudar os outros em horário de trabalho já deixa Carlos Correria meio contrariado – trata-se de um sujeito que tem bom coração só quando está em seu dia de folga – mas ele foi. Depois, passou por sua imaginação uma série de ajudas que não lhe dariam trabalho algum; aliás, pelo contrário. Bateu a porta do carro, apagou o cigarro, perguntou se não tinha cachorro, como de praxe, e entrou. Quando entrou na casa da solteirona, Carlos Correria deu de cara com uma segunda mulher estirada no sofá: era o Exu. Com três cigarros na mão direita, um copo de cachaça na esquerda, a voz grossa e o cabelo mais desgrenhado do que pinheiro de Natal, o Exu já lhe recebeu dizendo umas verdades:

– Volta pro teu lugar, misifi; aqui não tem nada que te pertence!

Carlos Correria aceitou a sugestão do Exu e, depois de quatro segundos pensando se tentava estabelecer um diálogo amigável, deu meia volta; honrando aliás seu sobrenome. Nesse caso, não deu tempo nem de deixar o seu cartão: “Carlos Correria, a seu dispor”. Enquanto a outra mulher implorava que fizesse alguma coisa, explicando que isso às vezes acontecia com a sua amiga, Carlos argumentava que não era muito entendido do assunto. Foi quando, já no portão da casa do Exu, passou um velho conhecido do nosso amigo do outro lado da calçada: era um pastor da Igreja Universal do Reino de Deus que vivia na rua de baixo. Carlos Correria sempre levava o pastor nas missas. Não deu outra.

– Espera um minuto que eu já vou dar um jeito nesse Exu! – disse o herói da nossa história.

Nessa hora, Correria já estava quase me deixando no destino da corrida e teve então que resumir a história. O pastor voltou com uma bíblia na mão e uma idéia fixa na cabeça; no caso, na cabeça do Exu. Diante do bicho, o pastor dizia que aquele corpo não lhe pertencia enquanto dava umas bordoadas com a bíblia na cabeça da mulher. Carlos Correria acompanhava tudo de longe. E o Exu, por sua vez, não teve escolha: foi ciscar em outro terreiro. No fim de tudo, depois de uns quarenta minutos, Carlos Correria ainda levou o Exu em casa.

– Pra Exu é bandeira dois! – disse nosso amigo pra mulher que não achou muita graça.

2 comentários:

Antônio LaCarne disse...

eu, por exemplo, mantenho um papo bacana com taxistas, qdo o bom humor me permite. em outros casos, nos mantemos em silêncio.

Anônimo disse...

Nossa, eu li essa crônica outro dia, e jurava que o personagem era Carlos Correia... Ai voltei aqui agora e vi que é Carlos Correria... Freud explica...