26.12.11

Mandingas e outras formas de justiça

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Por Victor da Rosa para Diário Catarinense




No final do ano a gente sempre faz umas mandingas pra vida melhorar, mas depois nada dá certo, e mesmo assim, no outro ano, a gente faz outra vez. É igual porre no meio de semana: quando a gente acorda em plena quarta-feira, com dor de cabeça e um monte de coisa pra resolver, percebe que aquilo não resolve a vida de ninguém, mas na outra semana está todo mundo na mesa do bar outra vez. Além do amigo secreto, assunto já desenvolvido em uma reflexão anterior – que é justamente a praga do começo do mês – as mandingas são as pragas do fim de dezembro.

Os principais objetivos das mandingas são arrumar namorado, ganhar dinheiro, ter saúde e paz, tudo ao mesmo tempo, o que não deixa de ser um pequeno resumo sobre o que a humanidade efetivamente deseja da vida e até mesmo, por outro lado, não deixa de ser um paradoxo. Ninguém pede pra ter bom gosto musical, por exemplo. Depois, se a pessoa quer ter paz, então é melhor não arrumar namorado; se quer ter saúde, é mais aconselhável continuar a vida como classe média, pois não há nada menos saudável do que o dinheiro. Enfim, não dá pra querer tudo de uma vez. Por outro lado, fica difícil também desejar um 2012 cheio de paz se a pessoa não tem dinheiro. O jeito mais rápido de conseguir paz na vida é comprando um apartamento maior.

Tenho uma amiga muito mística, aliás, que não acredita em mandinga, acha que mandinga é uma palavra antiquada, e fala em “rituais de harmonização”. Ela, que se define como “espiritualista” – essa coisa que ninguém sabe dizer muito bem o que é – acredita na “energia e nos bons fluidos das pedras”, mas acha uma tremenda vulgaridade usar calcinha vermelha pra arrumar namorado. E a minha tia Rosette Rosa, que sempre foi uma mulher cética e sem paciência, diz que não acredita em simpatias, só em antipatias, assim mesmo, no plural. Em outras palavras, trata-se de um assunto polêmico.

A verdade é que se mandinga desse certo, se todo pedido fosse logo realizado, então o Axé não teria nascido na Bahia de todos os santos, e sim na Suíça, lugar onde se faz pouca mandinga. Depois, tem umas mandingas que eu acho simplórias demais. Por exemplo, tomar banho de mar na hora da virada pra limpar a alma. Se for pra fazer mandinga mesmo, tem que fazer um troço diferente, tipo beber um litro de chá com cogumelos roxos preparado com água do Mar Báltico e temperado com gengibre indiano, em um gole só; pois banho de mar, salvo engano, a gente já toma toda semana. Também tem aquelas mandingas em que o sujeito tem que dar uns pulinhos. Não é legal. Ou vestir calcinhas e cuecas novas. Ora, isso é recomendável que se faça o ano inteiro. Aliás, se a pessoa não compra umas calcinhas legais já em fevereiro, está explicado porque no fim do ano fica querendo fazer mandinga pra arrumar namorado.

Outra coisa que eu acho errado nas mandingas é que pra não perder dinheiro você já tem que começar perdendo: esconder moedas debaixo do tapete e deixar lá o ano inteiro, enfiar notas de dez reais na sola do tênis – depois fica bêbado, esquece e entra no mar de roupa – enfim, essas coisas. Ou comprar camisa amarela pra depois ficar esquecida no guarda-roupa durante o ano. Francamente, eu acho que a melhor maneira de atrair dinheiro para 2012 é fazer hora extra no dia 31. Só em não sair pra festa de Reveillon, além de adquirir paz, você também já economiza uma boa grana. Ou então se candidatar para ser prefeito de Florianópolis no ano que vem. Mandinga boa, essa. Não tem erro. E depois tem aquele dito sábio com o qual eu não teimo em discordar: quanto mais mandinga, mais assombração.

3 comentários:

Antonieta Mercês disse...

Parabéns, amigo!
Quanta honra!Eu sempre acreditei em teu potencial de escritor.

Lengo D'Noronha disse...

Muito boa, Vitor. Abraço.

gilvas disse...

isso aí: mandinga boa é mandinga complicada. é que nem remédio, só funciona se for amarguento!