12.12.11

Um milhão de amigos secretos

.Por Victor da Rosa para Diário Catarinense





Até esta data, dia 8 de dezembro, consegui fugir de todas as celebrações de amigo secreto para as quais fui convidado. Duas coisas que eu fujo na vida, aliás: amigo secreto e sarau literário. Francamente, acho que amigo secreto é um negócio que já está errado desde o nome; geralmente os inimigos é que são secretos. Chega dezembro e todo mundo já fica querendo organizar um amigo secreto no final de semana. E o pior é que consegue. Seja na escola, na família ou até mesmo na empresa, lugar onde ninguém nem vai com a cara do outro, haverá sempre alguém te esperando com um embrulho na mão e um sorriso no rosto.

Às vezes eu acho que dezembro é o mês em que a humanidade, de modo geral, desenvolveu as suas piores ideias. Por exemplo, fazer uma camisa azul para o goleiro do Figueirense, como foi divulgado na semana passada. Ou então levar o filho, três sobrinhos e mais dois amiguinhos do colégio pra tirar uma série de fotos com o Papai Noel no Shopping Iguatemi, como fez a Rosette Rosa, minha tia. Que ideia de jerico é essa? Deve ser o cansaço de fim de ano misturado com a falta do que fazer. Dezembro, como disse uma amiga, é o inferno astral do menino Jesus. Em boa coisa não podia dar.

O processo da celebração do amigo secreto é dividido em duas partes. Na primeira, você pega o nome de seu amigo na sacolinha e não pode dizer pra ninguém, mas sempre acaba dizendo; na segunda, como se sabe, é quando chega a hora da revelação. Nesse momento, você tem que descrever as características físicas e/ou psicológicas de seu amigo, que vai deixando de ser secreto, enquanto as pessoas tentam adivinhar. Uma coisa legal dessa parte é que sempre tem alguém indiscreto – na minha família pelo menos é assim – que vai dizer umas coisas indiscretas, que o outro não vai gostar. O discurso costuma começar assim: “Quando eu conheci o meu amigo, não fui muito com a cara dele...”. Daí começa a lavação de roupa suja.

Outra coisa é que nos amigos secretos todo mundo sempre acha que deu um presente muito legal e ganhou um presente horrível, uma conta que, naturalmente, não fecha. Se todo mundo dá um presente bom, como alguém pode receber um presente ruim? Pelo que tenho observado, os presentes mais recorrentes são: 1) camisa gola polo preta; 2) sandália havaiana; 3) vale CD das Livrarias Catarinense; 4) anjinho bibelô; 5) meia soquete; e 6) Cacau Show – que, como se sabe, não é um best-seller do Cacau Menezes, e sim um chocolate melhorzinho. Fui falar tudo isso pro meu primo, justificando minha decisão de não participar do amigo secreto da família nesse ano, e ele veio com o papo de que “amigo secreto com a família é legal mais pra fazer um GUÉRI GUÉRI com a vó”.

Meu primo, que pediu pra não ser identificado, participa de todos os amigos secretos que pode. E organiza alguns deles, inclusive. Só nesse fim de ano, segundo me disse, foram seis participações. Perguntei como ele pode ter criatividade e principalmente paciência pra comprar tanto presente e ele disse que desenvolveu o método “Passa e Repassa”. No que consiste o método do meu primo? Consiste em presentear o amigo secreto de amanhã com o presente que ganhou hoje. “O melhor do presente repassado”, diz ele, “é a sensação que a gente tem quando presenteia”. De algum modo, com seu método, acredito que meu primo captou a essência do amigo secreto.

3 comentários:

gilvas disse...

pou, tu não vais ceder nem para agradar tua avó? isto é meio caminho andado para as profundezas dantescas...

Anônimo disse...

e qual será a sensação que ele sente quando dá?

Anônimo disse...

Chorei de rir com essa crônica. Obrigada.